Assim é (se lhes parece)

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A área de gestão de pessoas tem cada vez mais nos despertado para a importância do autoconhecimento.

 

Tomo emprestado de Pirandello, Prêmio Nobel de Literatura de 1934, o título de uma de suas peças teatrais para uma reflexão: Assim é (se lhes parece). A área de desenvolvimento humano e de gestão de pessoas tem cada vez mais nos despertado para a importância do autoconhecimento. Conhecer-nos totalmente, ou mesmo muito, é impossível. Somos sim aquele iceberg no qual a maior parte é inconsciente. A psicanálise já provou isso.

Mas, e a parte consciente, será que a conhecemos realmente? Quando fazemos uma autodescrição, somos aquilo mesmo? E quando pessoas das nossas relações nos descrevem, somos aquela pessoa ou elas nos veem de um jeito distorcido?

Apesar de sermos únicos, no sentido de que somos diferentes dos outros indivíduos, somos vários personagens na nossa vida pessoal e social. Assim, ser a pessoa que o outro acha que somos, apesar de nós próprios não acharmos, é real. É a percepção do outro que, em geral, é diferente da nossa.

Em artigo sobre Pirandello, o doutor em Letras Francisco Maciel Silveira fala que “somos tantos quantos são os que nos veem, imagem distorcida no espelho dos olhos alheios”. Por sua vez, o crítico teatral Sábato Magaldi descreve o pensamento de Pirandello da seguinte forma: “Eu posso crer-me alguém, mas sou tantos quantas são as pessoas que me contemplam, já que as imagens não se igualam”. E complementa: “A verdade da criatura humana é inalcançável, e a mais séria tentativa de captação desvenda apenas um ou outro de seus atos e não a imagem inteira”.

Não há verdade absoluta, mas, sim, como o título de uma das peças teatrais de Pirandello, “A verdade de cada um”. Refletir sobre tudo isso pode nos levar a uma angústia ou desilusão, pois sabemos que o autoconhecimento é a base do desenvolvimento humano, dos relacionamentos e da gestão de pessoas.

Por outro lado, saber que não nos conhecemos tanto como pensávamos nos leva a uma atitude de não arrogância ao entender que sou também o que pareço ser ao outro, apesar de nem sempre concordar. Também, ao compreendermos os outros e não julgar que estão sendo injustos por nos verem de formas não coincidentes com a nossa, cedemos abertura para ouvir outras verdades sobre nós.

Assim como as pessoas, “as coisas” também não são o que aparentam ser, há sempre uma distorção entre a realidade e sua representação. O que pensamos às vezes ser a realidade não passa de uma ilusão.

A parábola da caverna escrita por Platão no século IV a.C. ilustra bem esse conceito, pois simboliza o mundo da visão aparente e revela como o ser humano é prisioneiro estático de percepções, convicções e ações estereotipadas. Num mundo que reclama certezas, a maioria das verdades é sempre questionável.

Assim como somos vários personagens na nossa vida pessoal e social, também “somos” vários papéis na vida profissional, o que proporciona um repertório maior de respostas às incertezas e a como lidar com aquilo sobre o qual não temos controle, o imprevisível.

Em gestão de pessoas, todos esses conhecimentos são imprescindíveis. É preciso que aqueles que gerenciam pessoas tenham em mente uma das mais citadas falas de Riobaldo, personagem de Guimarães Rosa na obra Grande sertão: veredas: “o mais bonito do mundo é isto: que as pessoas não estão sempre iguais, ainda não foram terminadas – mas que elas vão sempre mudando. Afinam ou desafinam, verdade maior. É o que a vida me ensinou”. Assim como outra menos citada: “Deveras se vê que o viver da gente não é tão cerzidinho assim?”

Pirandello também nos diz: “se eu me creio hoje um, essa pessoa não é a mesma de ontem e não será igual à de amanhã”.

Portanto, os gestores, responsáveis também por desenvolver pessoas, devem estar atentos às limitações do ser humano assim como às suas mudanças e imprevisibilidade. Os líderes de pessoas precisam ter uma visão mais abrangente e sistêmica dos fenômenos que ocorrem com os seres humanos. Devem questionar seus conceitos e crenças, suas percepções e transformar suas visões. E, principalmente, abrir suas mentes e corações. “Cada um a seu modo.”

 

Consultora organizacional, professora associada da FDC e conselheira da ABRH-MG

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