Corrente do bem

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A ideia é parecida com os dominós caindo em sequência, em uma longa fileira. Um após o outro, um impactando o seguinte. Mas, no caso, ninguém cai. Na verdade, todos se ajudam a se levantar. Ainda mais em um momento conturbado da economia como o que vivemos. Trata-se de uma espécie de corrente do bem da gestão, uma tendência que Ruy Shiozawa, CEO do Great Place to Work Institute Brasil (GPTW), vem percebendo a partir das recentes pesquisas que o instituto realiza para descobrir quais são as melhores empresas para trabalhar, uma tarefa que começou ainda nos anos 1980, com o jornalista norte-americano Robert Levering (veja mais em Um pouco de história).

“As melhores empresas para trabalhar têm convidado seus fornecedores ou seus clientes para aderirem a esse movimento, que é a criação de excelentes ambientes de trabalho e o desenvolvimento de uma nova liderança nas organizações”, diz Shiozawa. Tanto essas companhias quanto líderes têm foco no resultado, obviamente, mas também, e sobretudo, sabem que os resultados são produzidos pelas pessoas e não apesar delas. “Elas [empresas] estão trabalhando com toda a sua cadeia produtiva para trazer mais empresas para esse processo. Porque se isso [esse excelente ambiente] é bom para elas, gera melhores resultados, gera um nível de serviço melhor ao cliente, elas também querem que seus fornecedores tenham esse ambiente melhor. Há uma reação em cadeia muito positiva e não há contraindicação quanto a isso”, destaca.

Criar um excelente ambiente de trabalho não é uma tarefa fácil, e muito menos impossível. Um ponto importante são os líderes. Ter uma liderança bem preparada é fundamental, e um dos itens que perduram nas agendas dos profissionais de RH há muitos anos: como fazer isso?

“É normal que se chegue ao mercado de trabalho sem uma preparação adequada para cuidar de pessoas. De forma geral, os profissionais têm uma formação técnica muito boa, mas a preparação para a gestão, especificamente a de pessoas, ainda é insuficiente”, comenta Shiozawa. É preciso, então, que as empresas supram essa demanda. “Aquelas que fazem isso têm mais chances de serem bem-sucedidas”, diz. “E quando divulgamos as melhores para trabalhar, o objetivo não é dar um prêmio ou fazer uma festa – que são coisas importantes, sem dúvida –, mas o principal é ajudar a melhorar a gestão das empresas. Quando se fala de um país mais competitivo, é disso que precisamos: melhor gestão.”

Nesta 10ª edição da lista das melhores práticas das melhores empresas para trabalhar, elaborada pelo GPTW para a revista MELHOR, é possível encontrar iniciativas que propiciem um novo olhar sobre o que há de destaque em remuneração, benefícios, educação e capacitação, comunicação e outras 19 categorias. “Essas ações podem e devem servir de inspiração para outros gestores. Aproveitando o tema do 41º CONARH, A arte da gestão de pessoas, as 16 empresas que fazem parte de nossa lista apresentam-se como modelos para que outras empresas possam criar ou aperfeiçoar suas práticas a partir do que aprenderam”, afirma Gumae Carvalho, editor da revista MELHOR.

“Esses são o desafio e a beleza desse trabalho. Isso significa que não há receita pronta. E reforça que o espaço para você criar é enorme”, reforça Shiozawa. Em outras palavras, as práticas que as empresas desenvolveram (e desenvolvem) para criar um excelente ambiente de trabalho são práticas próprias, alinhadas ao seu modelo, sua cultura. “É muito interessante visitar outras empresas, fazer benchmarking. Mas o mais difícil é traduzir a experiência de outra organização para a sua empresa. Como é que aquela prática do Google ou da Acesso Digital pode ser traduzida dentro da sua companhia? É aqui que está a arte! Isso cria espaço para as pessoas gerarem novas ideias, novas iniciativas e, com isso, estimularem muitas outras empresas”, diz o CEO do GPTW.

Propósito

A partir da lista deste ano da revista MELHOR e, obviamente, da lista divulgada pela revista Época, é possível perceber a consistência dessas melhores empresas em criar um ambiente de trabalho excelente. E em um ano desafiante isso é crucial. “Essas organizações perceberam que para conquistar o melhor das pessoas, precisam criar esse ambiente. Comprar as horas [de trabalho] das pessoas é fácil, é uma questão de negociação financeira. Agora, conquistar o coração delas, para que deem o melhor e o máximo de si…”, conta Shiozawa. Em um excelente ambiente de trabalho, em empresas que prezam a gestão de pessoas, traduzindo-a em bons programas e em uma liderança bem preparada, as pessoas vão retribuir em um momento difícil como esse. “Se os colaboradores acreditam naquela empresa, naquele propósito, naquela missão, então, nessa hora, eles vão dar o melhor de si.”

E por falar em propósito, vale ressaltar que nem só de lucro vive uma companhia. Autor de A arte de engajar (Qualitymark), Ricardo Seperuelo defende que as empresas que focam o lucro somente, e que não têm um propósito, que não conseguem expressar dentro de suas operações o motivo de sua existência, tendem a acabar em um espaço de tempo muito mais rápido do que se imagina. “Não dá para precisar o tempo disso, mas quando esse assunto vem à tona, quando elas descobrem que não têm um propósito, e quando as demais empresas e a sociedade percebem isso, torna-se mais difícil para elas recuperarem o tempo perdido”, diz.

Ele acredita que o a valorização do propósito vem se fortalecendo. “É o futuro das organizações unirem os propósitos organizacionais com os propósitos de vida dos colaboradores. Não dá para falar somente em lucro ou resultados. As pessoas não se engajam por isso. Elas se engajam por propósitos, por causas, por pessoas”, diz Seperuelo.

Nesse ponto, Shiozawa lembra outro destaque da lista das melhores empresas para trabalhar: a forte presença de empresas de tecnologia. “Elas têm ocupado um espaço grande nas listas do GPTW no mundo inteiro – inclusive na lista mundial, em que compilamos os dados dos 53 países onde as listas são feitas. E por quê? Porque elas aprenderam rapidamente isso: para gerar inovação, para gerar novas ideias, para gerar um software de qualidade é preciso ter pessoas capacitadas e comprometidas, motivadas, que estão alinhadas aos valores e propósitos da empresa”, conta o executivo do GPTW, que finaliza com um conselho para todas as empresas: “Escutem sempre as pessoas, suas equipes. Muitas vezes, as ideias já estão dentro da sua empresa”.

Um pouco de história 
Robert Levering cobria assuntos ligados ao trabalho, especialmente conflitos trabalhistas. Ao ser convidado para escrever um livro sobre as melhores empresas para trabalhar nos EUA, sua resposta foi negativa. Segundo ele, era impossível escrever esse livro, pois não existiria nenhuma boa empresa para trabalhar, na perspectiva dos funcionários (e não dos donos ou executivos). Ele chegou, inclusive, a sugerir um livro sobre as piores empresas para trabalhar, uma vez que exemplos não faltavam. Após longas conversas, Levering acabou topando o projeto original, mas fazendo à sua moda: ele foi entrevistar milhares de funcionários, in loco, de forma totalmente confidencial, em centenas e centenas de empresas daquele país.

Nessas conversas, ele conheceu pessoas que odiavam as empresas em que trabalhavam e seus chefes, tomou conhecimento de organizações com péssimos ambientes de trabalho. Ao mesmo tempo, encontrou, também, pessoas que adoravam aquilo que faziam, seus colegas, suas empresas. Essa descoberta deixou o jornalista tão impressionado que ele abandonou tudo que fazia e abriu um pequeno escritório com sua esposa, à época, a que deu o nome de Great Place to Work. E assim continuou estudando e se aprofundando no tema.

Sua primeira grande conclusão havia sido que sim, existem excelentes empresas para trabalhar. A segunda descoberta foi mais poderosa ainda: qualquer empresa, de qualquer tamanho, em qualquer lugar e em qualquer época, pode se tornar um excelente lugar para trabalhar. Além disso, Levering descobriu que, de uma forma ou de outra, as pessoas falavam coisas muito parecidas:

â–º gosto de trabalhar aqui porque tenho orgulho do que eu faço (e da minha empresa)

â–º gosto dos colegas com quem eu trabalho (há colaboração e espírito de equipe)

â–º confio nas pessoas para quem eu trabalho (posso confiar no meu chefe, ele me respeita e as decisões da empresa e do meu chefe são justas)

Em 1997, o GPTW começou a fazer as listas das melhores empresas para trabalhar. A primeira lista lançada em todo o mundo foi aqui no Brasil (hoje na revista Época), em 1998 nos EUA (na Fortune) e atualmente em mais de 50 países.

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