Educação corporativa: remédio para a crise

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A educação corporativa mudou muito nas últimas duas décadas e com ela os formatos de aprendizagem. Quem consegue pensar, hoje em dia, num treinamento em que um especialista fala e os demais apenas escutam e absorvem o conhecimento? Será que as apresentações em power point e as apostilas com conteúdo extenso surtem o mesmo resultado que há vinte anos? Dificilmente. Mesmo nas organizações mais conservadoras, esse cenário já está ultrapassado graças ao avanço de tecnologias que tornam a capacitação profissional mais atrativa, eficiente e com custos reduzidos.

Para Marcelo Mejlachowicz, cofundador do portal de educação a distância Veduca, por muito tempo as corporações investiram no formato presencial de educação continuada. O executivo afirma que, ao passo que o mercado de educação formal apresentava novidades como animações, avatares e modelos mais simples de apresentação, as empresas persistiam em modelos presenciais. Contudo, essa não é mais a realidade. “Hoje, as empresas usam a tecnologia para alcançar mais pessoas de forma mais eficiente”, observa.  

Mundo digital

Com a internet ficou simples acessar informações remotamente por meio de smartphones, tablets e computadores. Entre os recursos mais utilizados estão as videoaulas, os infográficos, os games e conteúdos interativos. Uma pesquisa recente realizada pela Digital Information World mostrou que 89% das pessoas da geração Y pensam que é importante estar constantemente aprendendo no trabalho e 74% dos usuários de tecnologia social se beneficiam do acesso mais rápido ao conhecimento.

A tecnologia é uma mão na roda para a educação corporativa. Mas toda essa facilidade não significa que o conteúdo é trabalhado de forma instantânea. “Com o advento da tecnologia e a integração de diversas soluções de conteúdo, os clientes demandam cada vez mais programas de qualidade”, analisa Romain Mallard, diretor da Crossknowledge, que considera o mercado bem dinâmico. Em outras palavras, se a empresa fornecedora de conteúdo não entrega um produto de qualidade, em pouco tempo o mercado trata de excluí-la.   

Esse desafio não é apenas restrito àqueles que entregam conteúdo. Cabe também aos gestores de pessoas encontrar a melhor alternativa, nesse mundaréu de soluções, para suprir os gaps educacionais dos colaboradores.  Nesse sentido, diz o professor da FIA e colunista da MELHOR, Eugenio Mussak, os RHs estão buscando programas que possuam duas características: conexão da teoria à realidade prática e a customização, tanto do conteúdo quanto do formato.  Para Mussak, o essencial quando se fala em tendências em educação corporativa é dividir os esforços entre competências técnicas e comportamentais. “É importante termos um mix entre essas capacitações, pois não adianta desenvolver competências técnicas sem cuidar do lado comportamental das pessoas.”

M-Learning

Segundo estudo divulgado recentemente pela Vertic, uma agência especializada em anúncios digitais, 67% das empresas adotam dispositivos móveis para que os colaboradores trabalhem remotamente. A acessibilidade e a flexibilidade desse acesso móvel se transformaram em uma alternativa eficaz na promoção da educação corporativa, como mostra o estudo da Ciathec Tendências de Educação Online 2015.

De acordo com o levantamento, a smartificação está entre os modelos em ascensão por desafiarem os profissionais a aprenderem de maneira eficiente em qualquer dispositivo, por meio de conteúdos atrativos, curtos e interativos. Segundo Rodrigo de Godoy, gerente geral de treinamento corporativo da Ciatech, soluções on-line são o melhor custo-benefício em educação corporativa. “Diferentemente da modalidade presencial, em que um treinamento fica restrito a um dia específico, a um local previamente designado e a um número x de participantes devido a custos com transporte, alimentação, locação de espaço e afins, o curso on-line pode ser acessado praticamente a qualquer momento, de qualquer lugar, por quantas pessoas a empresa quiser e pelo tempo que for necessário”, explica.

Modelos Híbridos

A junção de temas e os formatos de aprendizado, os chamados modelos híbridos, também são tendências na execução de programas educacionais. “Não necessariamente precisamos colocar o presencial e o a distância em lados opostos, porque há soluções híbridas que funcionam muito bem”, destaca. “Houve uma grande evolução no formato dos conteúdos. Eles estão cada vez mais ricos e com maior interatividade”, completa Godoy.

“Acreditamos que o tipo de solução a ser aplicada está diretamente relacionado com a necessidade da empresa, o objetivo do treinamento e o público-alvo. Dessa forma, um ranking de quais são as soluções mais utilizadas em uma determinada empresa varia de caso a caso”, explica o gerente, da Ciatech. O executivo relata que, de modo geral, houve um aumento significativo no desenvolvimento de videoaulas (v-learnings), infográficos e pílulas, sinalizando a tendência para a produção de peças menores e mais objetivas.

“Hoje não enxergamos mais um treinamento sem tecnologia, porque o mundo é digital. Mesmo com treinamento presencial já podemos ver games sendo aplicados em sala com uso do celular”, relata Daniel Orlean, sócio-diretor da Affero Lab. Para o executivo, o uso da tecnologia é crucial para que se consiga um aproveitamento muito maior e uniformização dos conteúdos. “Independentemente do meio, o conteúdo está sendo passado da mesma maneira.”

Outra ação que vem sendo aplicada nas empresas são os grupos de aprendizagem, conhecidos como Lessons Learn, como lembra Mari Martins, consultora e coach da Duomo Consultoria. “É por meio desses grupos que as pessoas se comprometem em aprender determinadas competências, gerando fóruns de discussão e troca de informações.” Daniel Orlean, da Affero Lab, relata prática semelhante entre os seus processos. “Utilizamos muito as ‘comunidades de práticas’, até porque as pessoas aprendem mais e melhor compartilhando experiências umas com as outras.” O executivo ainda informa que o uso de programas que conectem o colaborador com suas lideranças também é visto com bons olhos no mercado nos dias de hoje.

Certificações

Treinamentos certificados por grandes instituições também fazem parte das novidades oferecidas pelas consultorias de educação. “A busca por parcerias que creditam e certificam cursos e treinamentos é uma das ações desenvolvidas pelo Veduca. Contamos hoje com a participação da Bovespa, Fecap e FIA para oferecer conteúdo diferenciado e certificação reconhecida por grandes instituições do país”, explica Mejlachowicz, executivo da empresa.  

Além da gama de produtos e serviços oferecidos no mercado, o modelo de aprendizagem também deve estar em concordância com os resultados almejados pelas empresas. Atualmente verifica-se a aplicação do modelo 70:20:10 – que se baseia  no conceito de que as pessoas adquirem a maior parte do conhecimento e habilidades executando as tarefas no dia a dia do trabalho (70%),  seguido do aprendizado informal por meio de debates com colegas, amigos,  fóruns de discussão e redes sociais (20%), e em sala de aula (10%).

“As empresas estão muito focadas nos 10% (aprendizado em sala de aula). E devemos focar nos outros 90%, que é o que considero ser o mais importante”, salienta Orlean, da Affero Lab. Por outro lado, de acordo com Mari, da Duomo, a partir da consolidação desse modelo de desenvolvimento as estratégias na área de educação corporativa foram ampliadas. “Hoje vemos muitos trabalhos sendo desenvolvidos em liderança e coach e que preparam o gestor para dar feedbacks e levar seus colaboradores ao desenvolvimento”, afirma.

Idiomas

No mercado de idiomas também existem diversas modalidades de treinamento, contudo a escolha da melhor solução vai depender da política de idioma estabelecida pela empresa. “O tipo de programa depende de alguns fatores, entre eles: espaço físico e budget versus população”, relata Lucio Sardinha, CEO da Up Language. Para ele, se a população for muito maior do que o budget, as empresas optam por treinamentos on-line, pois esses equivalem a um quinto do preço de um curso in company presencial.

Porém, o executivo alerta que “menos de 10% (dos alunos de e-learning) fazem uso do conhecimento que recebem”. Nesses casos, os benefícios dos cursos presenciais ou in company, podem aumentar a satisfação do cliente, afinal o índice de abstenção nesse formato é bem menor se comparado ao on-line. “Se o processo não for bem conduzido, o curso on-line, apesar de ser mais barato, pode significar aproximadamente sete vezes menos resultados”, analisa.

A aplicação de avaliações internacionais também é destaque no segmento de idiomas. “Estamos trazendo um programa chamado Toeic (Test Of English International Comunication) para atender aos critérios de avaliação dos RHs ao oferecer um programa de idioma”, afirma Sardinha. Ele ressalta que finalmente o RH percebe a importância de estabelecer uma métrica para apurar resultados. “As empresas estão exigindo uma avaliação formal dos funcionários para apurar os resultados de investimento. E uma das provas mais reconhecidas no mundo é o Toeic no contexto corporativo.”

Crise

E na atual crise econômica a importância em investir na capacitação aumenta “Em um cenário de crise, o investimento em capacitação e treinamento faz-se ainda mais importante. Isso porque a concorrência acaba sendo ainda mais forte e, na maioria das vezes, o diferencial reside em quão preparados os profissionais de uma dada empresa estão”, observa Godoy, da Ciatech. Como dica ele  explica que num período de ‘mais com menos’, é essencial que as empresas criem meios de otimizar seus orçamentos por meio do desenho de programas mais eficientes.

Eugenio Mussak lembra que é na crise que a exigência de pessoas capacitadas, motivadas e integradas aumenta. “Alguém não capacitado não sabe fazer o trabalho, alguém desmotivado não quer fazê-lo e alguém não integrado na empresa não consegue executá-lo.” Para ele, as empresas devem focar três aspectos: motivação, capacitação e integração — criando espírito de equipe e aderência aos valores da empresa.

 Modelos de Educação Corporativa
Programas internos – Executados pelos próprios profissionais da organização e vão desde unidades de treinamentos simples até universidades corporativas. Essa é uma das saídas, as empresas organizarem-se, com educadores corporativos.

Programas internos com a participação de externos – Contratação em geral  de consultores para integrar um serviço interno de capacitação.

Compra de serviços de educação – Serviços de escolas de negócios e escolas técnicas.

Educação a distância – Feito por meio de ferramentas digitais como vídeos, desenhos animados, infográficos, jogos, podcast, etc.

Mix de todas as outras – União de um ou mais modelos de educação corporativa para uma aprendizagem eficiente e sustentável.

 

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Fonte: Ciathec

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