Fazer a gestão do estilo de vida e da saúde

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    O benefício da saúde envolve diversos setores de uma companhia. Como o RH deve se posicionar diante desse quadro? Como manter os custos com saúde em níveis “saudáveis”?

    Foto_Vignoli_textoAtualmente, mais de um milhão de trabalhadores brasileiros estão afastados de suas atividades, dependendo do auxílio-doença, devido a problemas como estresse, hipertensão, depressão, alcoolismo, diabetes, entre outros.

    Para o médico e sócio-diretor da B2Saúde Francisco Vignoli, a saída do RH, nesse momento, é buscar maior protagonismo e trabalhar bem a questão de logística da informação médica. “Cada empresa, como cada indivíduo, tem características próprias. Quando estamos tratando da medicina do estilo de vida é muito diferente de fazer uma simples ação de prevenção ou promoção da saúde”, diz.

    – O que é a Medicina do Estilo de Vida?
    – Vignoli: Na verdade, quando a gente fala de medicina, temos de pensar em um conjunto de ciências. As próprias especialidades médicas interagem entre si. É sempre muito difícil você caracterizar o estudo de um organismo, o corpo humano, a partir de um simples sistema. Isso já se mostrou não ser o ideal – o homem é mais integral do que um ser subdividido em sistemas. Por isso, a Medicina do Estilo de Vida é uma forma nova de abordagem, que existe há alguns anos, e que traz a mistura entre uma melhor saúde, a busca da longevidade e a busca da felicidade. Para que isso acontecesse, ela teve alguns pilares básicos, que seriam os cuidados com o sono, a alimentação, a atividade física e a gestão de emoções. Isso basicamente seria aquilo que a gente entende e espera da Medicina do Estilo de Vida.

    – Essa prática apresenta alguma outra vantagem?
    – Vignoli: Sim, com certeza. Na realidade estamos num mundo que sofreu grandes transformações, que enfrenta e enfrentou grandes desafios, como a fome, por exemplo. Do século passado para cá, mesmo a China, com sua imensa população, consegue ter avanços em relação à fome. Hoje o problema da humanidade não é mais a fome, é o excesso de alimentação – e muitas vezes essa alimentação com características não saudáveis. Em 2014, por exemplo, mais de 2,1 bilhões de pessoas apresentavam excesso de peso em comparação com 850 milhões que sofriam de subnutrição. Imagina-se que metade da humanidade vai estar obesa em 2030. Em 2010, a fome e a subnutrição mataram 1 milhão de pessoas, enquanto a obesidade matou 3 milhões. A gente observa que houve uma grande inversão nesse sentido. Então, quando falamos de outras vantagens além do indivíduo é exatamente toda uma visão de saúde pública e saúde grupal que pode mudar os caminhos não só da saúde em si, mas também de todos os investimentos e custos de saúde.

    – Qual o cenário atual e quais as expectativas para as empresas terem sua gestão da saúde eficiente?
    _ Vignoli: Acho que o processo passa pela mudança de protagonismo. Não só a área de RH, hoje, observa os custos e a eficiência do benefício saúde. Outras áreas estão envolvidas. Cada vez mais áreas, inclusive, como controladoria e compras. Isso por conta do custo da saúde, que hoje se sabe é o segundo maior, perdendo apenas para a folha de pagamento. Isso faz com que outras áreas se preocupem e sofram seu impacto. Matrizes internacionais começam a se incomodar com essa questão em relação as suas subsidiárias brasileiras. Isso porque no Brasil esse custo tem diferenças importantes; ele é duplo: as empresas brasileiras pagam o SUS e a saúde suplementar. Isso causa muito estresse com as multinacionais. Mas, como o valor do benefício saúde passa a ser cada vez maior e passa também a ser uma reivindicação trabalhista, ele assume um patamar de questão política, a briga é muita grande. Por isso existe uma busca e uma preocupação cada vez maiores pela eficiência.

    – O que falta para o RH compreender melhor as necessidades de equilibrar a medicina do estilo de vida e a gestão de custos?
    – Vignoli: Cada vez mais estamos trabalhando na nossa empresa a questão de logística da informação médica. Cada empresa, como cada indivíduo, tem características próprias. Quando estamos tratando da medicina do estilo de vida é muito diferente de fazer uma simples ação de prevenção ou promoção da saúde. É, na verdade, uma ação direcionada, precisa conhecer muito bem o funcionário, a família dele, sua relação com a rede médica, quais são seus níveis culturais para daí, sim, você desenvolver algo específico para um grupo e alcançar sucesso em nível de custos também. Eu não tenho dúvida de que o processo é educativo. É um processo educativo contínuo. Medicina também é educação. E é nesse aspecto que a gente vai se surpreender sempre, com uma enorme gama de novos fatores. Por isso é importante ter um processo de logística de informação médica, entender esse canal de suprimento e entender esse consumo. Hoje, o que existe é um consumismo de serviços médicos, não um consumerismo de serviços médicos; não há uma inteligência nesse consumo. Os pacientes são totalmente sugestionáveis pelas propagandas ou objetos de cada um dos parceiros dessa grande cadeia. Muitas vezes, o paciente impõe aquilo que imagina que seja um exame ou um tratamento necessário. Essa falta de orientação leva não só ao aumento absurdo de custo, como a uma sucessão de falhas e erros do serviço médico, fazendo com que o indivíduo venha a sofrer e não se beneficiar desse serviço. Com um planejamento logístico dessa informação médica você pode ter, sim, a medicina do estilo de vida como parceira – não só no processo de melhora na qualidade de vida desse grupo como no alcance da redução de custos.

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