Gestão de pessoas na história

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Quem nunca ouviu falar de Gerubal Pascoal, chefe do departamento de pessoal? A história de Gerubal mistura-se com a evolução do que era, em meados da década de 60, o embrião da atual área de recursos humanos. Para quem pensa que se trata de uma figura folclórica, vale contar que, de fato, ele existiu. Ele trabalhava na fábrica de chupetas Polegar, do então empresário Máximo Jacarandá do Vale – aliás, de quem era cunhado. Gerubal e Máximo Jacarandá faziam parte do programa Papai sabe nada, exibido pela TV Record, em 1965, comandado por Renato Côrte Real (veja mais na pág. 112).

A figura de Gerubal, por muito tempo, tem sido associada a um certo tipo de profissional, estereotipado,  focado apenas nas ações ligadas aos aspectos operacionais da administração de pessoal. Por mais que esses assuntos tomassem conta de boa parte da agenda desse executivo, engana-se quem imagina que não houvesse muita evolução na área. Por exemplo, havia o treinamento operacional, com base no modelo TWI, inventado pelos americanos durante a guerra, que era utilizado pelo Senai – que também oferecia cursos de supervisão, usando a expressão “relações humanas”.

Quem nos traz essa informação é o sócio-diretor da Change Consultoria e um dos mentores do comitê de criação do CONARH 2015, Luiz Augusto Costa Leite. Ele lembra que, nesse período, já havia descrições de cargos bem como os primeiros planos de cargos e salários com metodologia técnica. Além disso, psicólogas eram admitidas nas empresas para fazer seleção, aplicando testes nos candidatos. “A evolução de RH no Brasil é consequência da industrialização puxada pela indústria automobilística e, em 1965, o país já tinha um considerável parque industrial. Mesmo com o nome de departamento de pessoal, muita atividade era feita, não só em controles”, lembra.

Joaquim Patto, hoje consultor da Mercer, era estagiário da área de administração de pessoal da antiga Light em 1965. Para ele, a instalação de uma indústria automobilística no país, nos anos 1950, e o processo de industrialização crescente permitiram aos engenheiros mais espaço no que seria o RH nas empresas. “Eles eram os especialistas nas relações entre tempos e movimentos, ou seja, nos processos”, escreveu Patto em artigo publicado na revista MELHOR, em maio de 2004. Até então, havia um forte predomínio dos aspectos legais e jurídicos, a reboque da CLT– o que criava um amplo campo de trabalho para advogados nas empresas. “Quanto melhor o processo de minha empresa, melhor ela será. O funcionário é apenas mais uma engrenagem nesse, digamos, processo. Benefícios? Para quê? A educação e o sistema de saúde ainda não haviam entrado em colapso. Apenas no fim da década seguinte é que a preocupação com o trabalhador começa a ganhar força”, comenta Patto.

Sobre a importância dos advogados nesse ambiente, Costa Leite lembra que eles foram os primeiros “consultores de executivos”. “À falta de outras referências, os empresários consultavam seus advogados sobre problemas de gestão de pessoas, já que eles supostamente tinham maior relacionamento com o mundo externo, com uma visão diagnóstica, embora limitada pelo foco legal, que os empresários não tinham. Daí porque, também, os primeiros diretores de pessoal eram advogados”, diz.

Ele acrescenta que o período compreendido pela primeira década de existência da associação (1965-1975) tinha, além do aspecto legal, pelo menos três características e estágios de transição: uma evolução, ainda mecânica, da eficiência de controles e registros; um modelo gerencial paternalista; e uma visão de capacitação de mão de obra, via TWI e similares, já com um início de investimento em treinamento gerencial.

Mudanças

A mudança do cenário político na virada de março para abril de 1964 trouxe para a área de administração de pessoas uma grande mudança na legislação trabalhista da Era Vargas: o fim da estabilidade do emprego, substituída pelo Fundo de Garantia por Tempo de Serviço. “As empresas tiveram de negociar com os empregados a opção pelo novo sistema, o que nem sempre foi feito da melhor maneira democrática possível”, lembra Costa Leite.

Outros impactos desse novo panorama também eram sentidos. “O que aconteceu dentro das empresas, com o movimento militar, foi, num primeiro momento, uma ação repressiva de procura de empregados ‘agitadores’ ou ‘subversivos’, como era a expressão à época. Como os sindicatos eram dominados politicamente pelo governo Goulart, seus membros mais destacados eram procurados dentro das empresas. Os administradores de pessoal, como prepostos dos acionistas, não tinham poder para interferir. Em algumas situações, militares foram indicados para a direção de pessoal de grandes empresas públicas. Passado o primeiro momento, vários deles converteram-se, digamos assim, aos fascínios da atividade e procuraram se profissionalizar como gestores. A Doutrina de Segurança Nacional, cujas estratégias o governo seguia, tinha seu projeto de desenvolvimento que incluía preocupações com a geração de empregos e qualificação de mão de obra, só que a partir de uma concepção autoritária de gestão, dentro do mais puro modelo militar”, diz Costa Leite.

Nesse período, houve várias intervenções em sindicatos de trabalhadores, as greves ficaram proibidas e os salários passaram por várias regulamentações, das quais os administradores de pessoal tinham participação objetiva, como lembra Costa Leite: reposições integrais ou parciais do custo de vida, alternativas para enfrentar a inflação já inquietante (os adiantamentos quinzenais vieram daí), primeiras substituições dos advogados como negociadores, já que aspectos econômicos eram mais importantes.

E nesse ambiente de mudanças e desafios, alguns profissionais de administração de pessoal resolvem, em 1965, dar início às atividades da Associação Brasileira de Administração de Pessoal (Abape) que, 50 anos depois, passou a se chamar Associação Brasileira de Recursos Humanos (ABRH-Brasil).

Origem

A representação nacional da área de RH tem como marco o dia 13 de novembro de 1965, tendo sido criada no Instituto Agronômico de Campinas, interior paulista. A fundação aconteceu durante a 1ª Convenção Nacional de Administradores de Pessoal (Conap), que viria a se transformar no maior evento de gestão de pessoas da América Latina e segundo do mundo, o CONARH.

Da cerimônia participaram 99 administradores de pessoal, oriundos de São Paulo, Rio de Janeiro (então Estado da Guanabara), Minas Gerais e Paraná. Eles representavam algumas das maiores empresas do país: Belgo Mineira, Bendix, Máquinas Piratininga, Anakol Fontoura, Microlite, Eron, Carborundum, Camargo Correa, Equipamentos Clark, Santista, Sanbra, GE, Texaco, CIME, Esso, Vulcana, Gillette, Shell, FNM, Otis, HM – Hermes Macedo, Usipa e REA.

A semente da Abape tinha sido lançada alguns meses antes, em maio, durante o 2° Congresso Interamericano de Administração de Pessoal (Ciap), realizado em Caracas, na Venezuela. Lá, foi determinado que caberia ao Brasil organizar, em 1967, a terceira edição do evento internacional. Boa parte da delegação brasileira presente no Ciap era formada por membros da então Associação Paulista de Administração de Pessoal (Apap), atualmente ABRH-SP, que havia sido fundada em março.

A proposta de organizar o 3º Ciap era entusiasmante, mas também se mostrava como um grande desafio. Para começar, para abrigar um evento internacional, era preciso existir uma associação de âmbito nacional. Foram feitos, então, contatos pelo Brasil afora. Onde houvesse uma associação dedicada à administração de pessoal chegou o convite para participar da organização da nova entidade.

As bases da nova associação nacional foram lançadas na organização da 1ª Convenção Nacional de Administração de Pessoal (1ª Conap), realizada no Instituto Agronômico de Campinas, em 13 novembro de 1965, e cuja organização ficou a cargo do Centro de Estudos de Administração de Pessoal (Ceap) de Campinas. Durante o evento foi feita a assembleia geral de fundação da Associação Brasileira de Administração de Pessoal (Abape), tendo sido eleito como seu primeiro presidente Siegfried Hoyler, de São Paulo. Assim nasceu a ABRH. Sem sede, ainda, mas com alma. Os objetivos da recém-criada associação eram:

> coordenar, em âmbito nacional, as entidades seccionais a ela filiadas, no sentido de desenvolver os princípios, as normas e as técnicas de recursos humanos;

> desenvolver e aperfeiçoar os executivos, técnicos e demais profissionais de recursos humanos, diretamente ou por intermédio das entidades a ela filiadas, por meio de congressos, seminários, cursos, palestras, encontros, pesquisas e outras formas de aquisição ou troca de experiências;

> publicar e manter livros, revistas e trabalhos técnicos culturais voltados à área de recursos humanos;

> colaborar com os poderes públicos, entidades e autoridades nos assuntos referentes a recursos humanos.

A associação manteve os encontros nacionais, Conap, a cada dois anos, no início, e a cada três anos depois (veja mais na pág. 114). Discutiu todos os temas pertinentes às relações de trabalho, tendo como pano de fundo a efervescência do cenário da época e dos anos seguintes.

Nessas cinco décadas atuando em cenários dos mais adversos, a ABRH-Brasil conquistou credibilidade, consolidando-se mundialmente como uma instituição representativa e mobilizadora. Prova disso é que, em 2004, quando o Brasil sediou o 10º Congresso Mundial de Recursos Humanos, evento bienal promovido pela World Federation of People Management Associations (WFPMA), mais de 4,2 mil congressistas reuniram-se no Riocentro, na capital fluminense, recorde na história do evento.

Além do CONARH, os profissionais de RH também têm acesso a outros eventos promovidos pelas seccionais da entidade espalhadas pelo país. São congressos estaduais, fóruns de líderes, encontros ligados à gestão pública. Isso sem contar com as edições regionais do Prêmio Ser Humano e o ABRH na Praça, evento criado em 2005 pela ABRH-RJ, mas que invadiu o país. Uma iniciativa feita em parceria com profissionais, empresas e instituições públicas e privadas, o ABRH na praça leva informações e orientações sobre temas ligados ao mundo do trabalho ao público em geral.

E a preocupação em fortalecer a presença da entidade em todo o território brasileiro se mantém firme, desde sua criação em 1965. Nos últimos anos, tem sido realizado um trabalho de inversão de pirâmide. Ou seja, as atuais 22 seccionais da ABRH (confira quais são na pág. 208) passam ocupam o topo, tendo a ABRH-Brasil como suporte. “A ideia é subsidiar cada uma delas com o apoio necessário para cumprir a missão da ABRH em seus respectivos estados”, comenta Arlete Campos, gerente de assuntos institucionais, que está há 20 anos na associação, sendo, dessa forma, a colaboradora mais antiga. De acordo com Leyla Nascimento, atual presidente da ABRH-Brasil e primeira mulher a ocupar esse cargo na entidade, as seccionais têm fundamental importância. “Sem elas, da seccional mais antiga, São Paulo, à nossa caçula, Piauí, nosso trabalho não se completa”, diz.

Gestão de pessoas em destaque 
Instituído pela ABRH-Brasil em 1993, o Prêmio Ser Humano Oswaldo Checchia se consolidou como instrumento de valorização das melhores iniciativas dedicadas ao desenvolvimento das pessoas dentro e fora das organizações, assim como de estímulos ao pensamento criativo e identificação de novos talentos.

O nome do prêmio é uma homenagem a Oswaldo Checchia, um dos fundadores da ABRH-Brasil e grande articulador para o reconhecimento da área de recursos humanos como estratégica nas organizações. A edição atual do prêmio conta com as seguintes modalidades:

> Gestão de pessoas / empresa
> Gestão de pessoas / profissional
> Gestão de pessoas – acadêmica – graduação / pós-graduação
> Desenvolvimento sustentável e responsabilidade social / empresa
> Desenvolvimento sustentável e responsabilidade social / organização do terceiro setor

 

Galeria de presidentes 
Quem esteve à frente da associação nesses 50 anos de sucesso

Da criação da ABRH-Brasil aos dias de hoje, inúmeras mudanças ocorreram. Transformações nos cenários político, econômico e social ajudaram a moldar o mundo em que vivemos, que se tornou palco para a complexidade e uma época de incertezas. Em um ambiente globalizado e altamente competitivo, assistimos, também, à transformação do profissional de recursos humanos.

Do administrador de pessoal, profissional burocrático e controlador, ao RH envolvido com ética, competitividade, responsabilidade social, sustentabilidade e resultados do negócio, a ABRH-Brasil vivenciou e influenciou a história, promovendo a disseminação das boas práticas em gestão de pessoas.

Presidida por Leyla Nascimento, a entidade contou, nesses 50 anos, com a convicção e a determinação de grandes líderes que ajudaram a construir e sedimentar essa história de sucesso:

 

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