Jovens tendem mais a aceitar conduta irregular, indica estudo

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Os profissionais mais jovens são maioria no grupo considerado de alto risco diante de dilemas éticos, aponta a segunda edição da pesquisa Perfil Ético dos Profissionais das Corporações Brasileiras, apresentada pela empresa de consultoria ICTS Protiviti. O estudo mostra o posicionamento de colaboradores em tópicos como disposição para denúncias e recebimento de suborno. A pesquisa ouviu, entre 2012 e 2014, 8.712 profissionais de 121 empresas privadas com operações no Brasil.

De acordo com o levantamento, 82% dos profissionais com até 24 anos aceitam comportamentos irregulares com maior facilidade. Quase 70% dos colaboradores nessa faixa etária também tendem mais a hesitar em apresentar denúncias, e 56% tendem a decidir sobre suborno a partir das circunstâncias. Mas isso ocorre porque os jovens estão dispostos a assumir riscos? Ou o problema principal é a falta de informação?

Segundo Monica Gonçalves, gerente de compliance individual da ICTS, não ter uma noção clara das regras e das consequências de atos irregulares é um dos fatores preponderantes. “É uma soma da falta de informação com uma dificuldade para medir as consequências. Hoje, boa parte dos jovens vem para o mercado sem referências do mundo corporativo. Falta a eles um parâmetro, enquanto sobram ambição e imediatismo.”

O que é compliance individual?

O termo compliance tem origem no verbo em inglês to comply, que significa agir de acordo com as regras e instruções de um determinado local. No âmbito corporativo, refere-se à atividade de fazer com que as diretrizes, normas e políticas do negócio sejam cumpridas.

Compliance individual contempla as ferramentas e análises para identificar o nível de aderência dos colaboradores à cultura ética da organização.

Nesse cenário, a área de RH tem um papel fundamental. “É essencial que o profissional não seja avaliado apenas por competência, mas que também existam meios de analisar o comportamento das pessoas diante de pressões e dilemas”, avalia Monica. “O objetivo de uma análise como essa não é excluir pessoas, mas entender como a empresa deve trabalhar a questão.”

O comportamento ético, portanto, pode ser em grande parte aprendido. “Nossa experiência reforça cada vez mais o entendimento de que ética se aprende. Cabe às empresas o papel de colaborar de forma mais ativa para a formação dos profissionais brasileiros nos temas comportamentais relacionados à ética e aos valores organizacionais, e não apenas com a capacitação técnica. Os profissionais são contratados por suas competências técnicas, mas muitas vezes são demitidos por seu comportamento”, afirma Mauricio Reggio, sócio-diretor da ICTS.

Trabalho em conjunto
Esse contexto demanda que o RH trabalhe em conjunto com o setor de compliance e com os líderes da organização. “Profissionais com mais tempo de empresa, que conhecem bem os processos e procedimentos, podem ser uma fonte de apoio para o jovem”, diz Monica.

O papel dos líderes é considerado central também pelo advogado Marcos Ferraz Paiva, professor do MBA em de Controles Internos (Compliance) da Fundação Instituto de Pesquisas Contábeis, Atuariais e Financeiras (Fipecafi). “A melhor ‘técnica’ para disseminar o comportamento ético é o exemplo que vem de cima, dos gestores.”

O debate e o interesse das empresas em torno de questões ligadas a ética e compliance têm crescido desde a promulgação da Lei Anticorrupção, que responsabiliza pessoas jurídicas por atos contra a administração pública, com a aplicação de multas de até 20% do faturamento. Paiva afirma que as empresas brasileiras estão em uma fase inicial de estruturação em torno da questão.

Monica alerta que, no cenário atual, simplesmente ter um código de ética não é mais suficiente. “Ele precisa ser periodicamente revisto e reforçado. É preciso detalhar quais são as consequências de ações fora das regras.” Nesse sentido, é essencial ter um plano de comunicação na empresa que reforce as normas internas e informe com clareza quais são os possíveis resultados de condutas antiéticas.

Outro tópico que não deve ser ignorado é a “reciclagem” ética de colaboradores com mais tempo de casa – realizar, por exemplo, encontros e treinamentos para reforçar as normas e debater o tema. O peso não deve ser colocado todo nas costas dos mais jovens: se, de um lado, eles aparecem como os mais suscetíveis a aceitarem condutas irregulares, de outro, a pesquisa também aponta que profissionais em nível de direção são os que mais tendem a revelar informações confidenciais, e colaboradores com mais de 55 anos são os que apresentam maior tendência ao uso de atalhos antiéticos para atingir resultados.

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