Luz, câmera, gestão

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Desde tempos imemoriais, é sabido que a arte tem uma grande importância na formação das pessoas. Ela humaniza, emociona, sensibiliza, ajuda a desenvolver o senso crítico, propicia condições de exteriorizar sentimentos e é importante no desenvolvimento social e na integração entre os indivíduos.

Isso faz com que seja fundamental para a convivência entre os seres humanos, pois além de contribuir para eliminar preconceitos e estimular a diversidade, é um campo de debate, mudança e capacidade de adaptação.

Paralelamente, todo o complexo que chamamos cultura, e que inclui as artes, não deve ser visto como um valor não lucrativo. Ao contrário, precisa ser visualizado como um investimento importante para a produtividade empresarial e, cada vez mais, como um valor fundamental do crescimento do ser humano e manutenção de referenciais básicos para uma sociedade mais civilizada.

Numa época em que o mundo praticamente não tem mais fronteiras, tornou-se muito maior a responsabilidade de cada nação com o desenvolvimento e divulgação dos seus traços e padrões culturais. Essa responsabilidade é, na verdade, uma questão estratégica no contexto atual. E também um grande potencial de mercado.

Até porque a visão das interfaces culturais tem hoje uma abrangência muito maior, possibilitando a inclusão nesse conceito de outras atividades, entre as quais, esporte, gastronomia, turismo, ecologia, moda, desenvolvimento, educação, gestão e cidadania.

O desaparecimento das fronteiras, principalmente as relacionadas com o conhecimento e sua disseminação, faz com que áreas ligadas à arte, ciências, filosofia e outras, antes dispersas, cada vez mais se juntem ou se complementem.

Como define o filósofo francês Edgar Morin em seu livro A cabeça bem-feita, hoje já não se concebe mais o que ele chama “compartimentagem dos saberes”, sendo cada vez mais importante uma visão sistêmica e global do conhecimento, o que resulta num ótimo retorno para o mundo corporativo.

O cinema na gestão de pessoas

Esse é o caso das artes e, entre elas, um grande aliado para isso é o cinema, já que aspectos do dia a dia das organizações podem ser vistos nas telas, sendo também cada vez mais tênue o fio que separa a ficção da realidade.

Vivemos em uma época caracterizada pela complexidade, incertezas, mudanças constantes, desenvolvimento acelerado da tecnologia, mundo real e virtual, diversidade como um fator competitivo, sustentabilidade como estratégia de negócios, surgimento de um novo profissional que anseia por um ambiente organizacional sadio e criativo, necessidade de gestores que harmonizem os propósitos dos empregados com os objetivos da empresa e, principalmente, pelo papel fundamental que as corporações adquiriram no mundo contemporâneo, em face do seu compromisso com o desenvolvimento da sociedade e evolução da humanidade.

Edgar Morin: sem comparimentar o saber

Essa realidade, crescentemente refletida nas telas, mostra como o cinema pode retratar o ambiente empresarial de forma altamente diversificada.

Por meio dos filmes, os profissionais podem aprender muitas lições relacionadas com o cotidiano do mundo corporativo, como comportamento de grupos, choque de culturas, conflitos, ética, liderança, diferenças de percepção, persistência, propósito, preconceito, mudança, negociação, modelos mentais, padrões, paradigmas, processo decisório, resiliência, sustentabilidade, valores e muitas outras.

Acrescentaria, ainda, que os gestores são hoje, mais do que nunca, agentes de transformação. E o cinema, como área cultural e social, é um instrumento auxiliar de mudança: há, para toda a cadeia produtiva de uma empresa – colaboradores, clientes, investidores, parceiros, comunidade –, filmes específicos que podem ser utilizados, debatidos e transpostos para a área de gestão.

Os filmes

Por sinal, aquele que é considerado o primeiro filme da história cinematográfica – A saída dos empregados da fábrica, dos irmãos Lumière, um curta-metragem documental de 1895 filmado em Lyon – já era ambientado no mundo do trabalho, mas os exemplos são incontáveis. Um dos mais famosos surgiu em 1936, com o genial Tempos modernos, de Charles Chaplin, satirizando a industrialização e alienação nas organizações.

Desde então, inúmeros filmes têm possibilitado o debate de temas ligados ao trabalho, tais como: Doze homens e uma sentença, de Sidney Lumet, sobre comportamento de grupos e processo decisório; Almas em chamas, de Henry King, sobre estilos de liderança; e Tucker, um homem e seu sonho, de Francis Ford Coppola, que trata da busca e concretização de um propósito.

Muitos outros podem ser citados, como Rosetta, dos irmãos belgas Luc e Jean-Pierre Dardenne, um libelo sobre o desemprego; Meu nome é Joe, do inglês Ken Loach, sobre alcoolismo, desemprego e perda da dignidade; e o fenômeno Intocáveis, de Olivier Nakache e Eric Toledano, que traz a história real de Philippe, um ricaço francês que ficou tetraplégico após um acidente de parapente e sua amizade com Driss, um imigrante pobre que acabara de ser solto depois de cumprir pena por roubo.

Há diretores, inclusive, como o francês Laurent Cantet, que escolheu o assunto para tema principal dos seus filmes, como pode ser visto em Recursos humanos – que trata de diversos momentos do mundo do trabalho – e A agenda, o impressionante drama de um homem que é demitido e perde suas referências.

Cada espectador(a) vê um filme

Outro aspecto importante é que o cinema proporciona um envolvimento imediato, fazendo com que as pessoas mergulhem na trama, o que facilita a transposição para a área de gestão dos temas que estão sendo tratados, resultando – além do entretenimento e lazer – numa fonte muito rica de reflexão e enriquecimento cultural.

Num estudo que realizou com a psicologia do filme, o especialista alemão Hugo Münsterberg considera o cinema como um processo mental em que as pessoas recriam o enredo a partir do seu sistema de crenças. Ou seja, os sentimentos não são expressos diretamente pelo filme, mas resultam da reação dos espectadores, nascem de seus valores, padrões, condicionamentos e histórias de vida. É por isso que às vezes uma determinada cena pode emocionar profundamente algumas pessoas e a outras, não. E também por isso, costumo sempre dizer, que “cada espectador(a) vê um filme”.

Por último, não é demais lembrar que o arcabouço cultural é um diferencial competitivo para as organizações, o que torna, cada vez mais importante, que os executivos ampliem esse universo, principalmente aqueles que atuam diretamente na área de gestão, pelo fato de ser um campo multidisciplinar, multifacetado e que lida com o ser humano em seus vários aspectos e dimensões.

Além disso, a capacidade de atuar em contextos globais diferenciados é uma competência essencial e crescente. Cruzar fronteiras virtuais e/ou reais, bem como aplicar competências a desafios multiculturais diversificados tornou-se um papel-chave dos profissionais e gerentes no mundo atual.

E, para isso, o cinema, que é uma arte universal, pode dar uma grande contribuição. Por meio da exibição e debates de filmes que abordem temas vividos no cotidiano das organizações e das pessoas, é perfeitamente possível aliar a forma lúdica, atraente e enriquecedora do cinema com a complexidade, os desafios e as exigências cada vez maiores da área de gestão.

 

Da tela para a empresa 

Exemplos de alguns filmes que possibilitam a transposição de temas para a área de gestão

Do brasileiro Walter Salles ao português Manoel de Oliveira, uma lista de filmes que podem ajudá-lo a encarar com outros olhos temas como liderança, motivação, mudança de paradigma, superação, resiliência e, por que também não, esperança.

Momentos decisivos, de David Anspaugh (1986)
História real de um time de basquetebol de Indiana (EUA), que entra em crise quando os métodos ortodoxos do novo técnico batem de frente com todos. Na transposição para o mundo corporativo, enseja o debate de diversos temas como coaching, cultura,
equipe, identificação do potencial, liderança, motivação, mudança, paradigma e superação de limites.

Spotswood, um visitante inesperado, de Mark Joffe (1992)
Uma fábrica de sapatos australiana, que não se adaptou à nova realidade empresarial e está passando por sérias dificuldades, contrata um consultor para tentar salvá-la da falência total. Além de colocar em evidência qual deve ser o papel do consultor, o filme permite o debate de muitos temas como empresas familiares, clima organizacional, ética, motivação, mudanças,
choque cultural, modelos mentais e valores.

O inglês que subiu a colina e desceu a montanha, de Christopher Monger (1995)
Baseado numa história real, o filme mostra a mobilização dos moradores de uma cidade do País de Gales para alcançar um objetivo que para eles era fundamental, uma questão de honra e orgulho. O momento em que o coletivo substitui o individual e todos passam a caminhar na mesma direção possibilita uma perfeita analogia para debater a importância de uma cultura corporativa sólida em que todos se alinham na estratégia da organização.

Abril despedaçado, de Walter Salles (2001)
Por meio da história de Tonho – obrigado pelo pai, o patriarca da família Breves, a vingar a morte do seu irmão, vítima de uma luta ancestral entre famílias pela posse da terra –, o filme evidencia uma verdade inquestionável: quando não somos o sujeito das nossas ações, deixamos de dominar o nosso presente imediato e nossos projetos futuros. Além disso, a história permite o debate de vários temas como alienação no trabalho, modelos mentais, mudança, paradigmas, redenção, tradição e cultura.

Vou para casa, de Manoel de Oliveira (2001)
Por meio de Gilbert Valence, um ator famoso, já entrado em anos e sua resistência em interpretar um personagem que lhe repugna, a trama possibilita a reflexão de temas presentes nas organizações e em nossas vidas como aposentadoria, solidão, sabedoria, dignidade, valores e o dilema entre manter princípios éticos ou aceitar um papel que não traz orgulho e significado, mesmo que isso signifique a possibilidade de continuar trabalhando.

O último Mitterrand, de Robert Guédiguian (2005)
O filme segue o presidente François Mitterrand, já doente terminal, e sua conversa com um jornalista sobre questões universais como política, mídia, história, ética e literatura. A trama vai além de uma pessoa enquanto esteve no poder e fala mais do final de uma vida quando desigualdades, paradigmas e preconceitos sociais desaparecem junto como todo o arsenal que acompanha os poderosos.

Os doze trabalhos, de Ricardo Elias (2006)
Inspirado no mito grego de Hércules, o filme segue Heracles, um jovem negro, egresso da Febem, que vive na periferia de São Paulo e passa a trabalhar como motoboy. Além de traçar um retrato contundente da vida dos motoboys na Tebas paulista, o filme permite um debate em torno de temas como o preconceito, discriminação, resiliência, superação e esperança.

Escritores da liberdade, de Richard LaGravenese (2007)
O filme é a história real da professora Erin Gruwell que num contexto social adverso resolve adotar métodos não convencionais de ensino, levando seus alunos a valorizarem a si mesmos e a investir em seus sonhos. A história evidencia o papel do educador na formação dos seres humanos e a importância do desenvolvimento como mecanismo de transformações individuais e coletivas.

A grande virada, de John Wells (2010)
O filme é sobre um grupo industrial que, ao ser duramente afetado pela crise econômica, começa a cortar empregados, inclusive altos executivos. Além de abordar temas como dispensas, recolocação, poder, ética, superação e resiliência, evidencia a postura que a área de recursos humanos precisa ter em momentos como esse, ajudando a organização a buscar novamente seu equilíbrio, em vez de aceitar ser convocada apenas para dispensar pessoas e enxugar estruturas, como é mostrado numa cena.

A invenção de Hugo Cabret, de Martin Scorsese (2011)
Baseado no livro homônimo de Brian Selznick – e vencedor de cinco prêmios do Oscar –, o filme mostra que todos nós precisamos ter um propósito na vida e que, para cada ser humano, existe uma razão de ser. Por meio da viagem que faz às origens da arte cinematográfica, estabelece ainda uma junção entre passado, presente e futuro, algo que também precisa ser levado em conta no universo organizacional, principalmente quanto às estratégias exigidas pelo mundo atual.

 


Myrna Silveira Brandão é jornalista e diretora cultural da ABRH-RJ

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