Mais cuidado com a saúde

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Em um cenário de crise econômica, os empresários e, especialmente, os gestores de RH se deparam com um dilema: enfrentar os crescentes custos dos serviços de saúde e descartar qualquer possibilidade de corte desse benefício para os colaboradores. Nesse cenário, as grandes corporações, e até mesmo empresas de pequeno e médio porte, começam a recorrer aos serviços de consultorias e corretoras de benefícios em busca de soluções que impliquem uma redução da sinistralidade, o que significa, no mínimo, a manutenção dos custos atuais.

Pesquisa recente com 9 milhões de profissionais atendidos por planos de saúde corporativos no Brasil feita pela AxisMed, consultoria de gestão integrada da saúde pertencente ao Grupo Telefônica, apontou uma desproporção assustadora entre o número de pessoas com doenças crônicas severas e seu custo para empresas e operadoras de assistência médica: 3,4% dos entrevistados respondem por 45% das despesas.

Casos classificados como catastróficos, 0,1% do total (9 mil pessoas), absorvem 10% do montante total de custos, enquanto 4,64 milhões de saudáveis ou com risco não identificado (51,6%) só alcançam 15% dos gastos. “Um programa bem delineado de gestão de saúde populacional, com monitoramento efetivo e regular das condições clínicas de cada colaborador, pode não apenas reduzir encargos com a diminuição de internações em prontos-socorros, como também os índices de absenteísmo. Estimular a mudança de hábitos pode, inclusive, diminuir em mais de 30% os custos com saúde”, ressalta o diretor executivo da AxisMed, Fábio de Souza Abreu.

Luís Chicani, CEO da BenCorp, afirma que o benefício saúde corresponde, em média, de 9% a 12% da folha de pagamento, mas alguns casos podem superar 20%, devido à alta sinistralidade. “Temos notado que tem crescido muito o absentismo por conta dos atestados e também dos afastamentos junto à Previdência, quando ultrapassa os 14 dias, e as empresas não têm dado a atenção devida a esse tema. Uma consultoria que integre benefícios e saúde ocupacional pode mostrar um cenário mais preocupante e apresentar uma solução ao cliente”, diz.

Na conta do benefício saúde, uma variável importante é a inflação médica que, em 2015, variou entre 13% e 20%, índices aplicados sobre a mensalidade dos planos de saúde, além de outro percentual relativo ao desequilíbrio econômico e financeiro do contrato, que é o reajuste técnico, como destaca Vera Bejatto, presidente da Victory Saúde. “Ambos os reajustes chegam a impactar em torno de 20% ou mais no faturamento da empresa, dependendo de como ela controla os custos com saúde”, aponta.

Edna Vasselo Goldoni, diretora comercial da Admix, destaca que o tipo de operadora também pode impactar o custo final do plano. “As seguradoras são impedidas por lei de ter rede própria, o que as obriga a trabalhar com rede referenciada, de modo que o tíquete médio é um pouco mais alto do que das medicinas de grupo. No entanto, há uma linha de produtos premium que dão cobertura em hospitais e laboratórios de primeira linha e são oferecidos por praticamente todas as operadoras, seja medicina de grupo, seja seguradora”, diz.

Gestão de crônicos

Como os pacientes crônicos consomem praticamente metade dos custos com saúde, o primeiro passo é identificá-los em meio a toda a população, definindo o grau de risco de cada indivíduo e a melhor ação para melhora da sua condição de saúde e redução dos custos. “Se o crônico consome muito recurso devido a um comportamento característico da sua condição de saúde, precisamos atuar diretamente nesse comportamento”, afirma Rachel Santos Moreira Redigolo, responsável comercial e de marketing da AxisMed.

A maioria das consultorias de benefícios, hoje, oferece serviços que englobam softwares de gestão de crônicos e afastados e central de atendimento 24 horas composta por enfermeiras, psicólogos e médicos que fazem o acompanhamento por meio de contatos telefônicos e visitas presenciais conforme o grau de risco. “Se a pessoa faz tratamento médico, ela é monitorada de acordo com o protocolo. Porém, se ela sofre alguma descompensação, por exemplo, fez uso do pronto-socorro por conta de sua patologia, ela entra no grau de risco e é utilizado outro protocolo de acompanhamento”, explica Elisiane Aresi, gerente de operações de benefícios da BenCorp.

Beatriz Pereira, gerente de saúde ocupacional da BenCorp, ressalta que uma empresa, ao desenhar um programa de gestão de saúde, deve dar foco ao autocuidado, ou seja, o beneficiário é responsável pela própria saúde e a consultoria fornece ferramentas, conhecimento técnico e alternativas para ele cuidar da saúde de maneira correta.

Também é importante destacar que as doenças psicossomáticas respondem pela segunda maior causa de afastamento do trabalho, de modo que essas centrais de atendimento 24 horas têm um papel importante no apoio ao tratamento. “Muitas das causas da depressão ou ansiedade, por exemplo, são questões financeiras ou emocionais como separação, crises por dependência química e esse programa dá suporte aos beneficiários. De acordo com a gravidade de cada caso, a pessoa é encaminhada para o atendimento presencial”, detalha Elisiane.

Ela ainda aponta que essa ação pode ser muito interessante porque muitas vezes as pessoas têm um pouco de dificuldade de se expor para o RH ou para o setor de medicina ocupacional e, nesse canal de atendimento, existe uma política de ética profissional e sigilo que dão um conforto maior ao colaborador para que ele procure pelo serviço.

Cortar nunca

Embora os aumentos de custos e a crise econômica pressionem as organizações, é certo que o plano de saúde é um benefício que jamais deve estar na pauta de cortes. “As corporações têm feito muitas demissões, o que acarreta uma diminuição do público beneficiário. Em função da queda da receita das empresas, o gestor de benefícios precisa entregar resultados aos stakeholders e isso só acontece com aumento de receita ou corte de custos. Como atualmente as receitas estão sendo muito penalizadas, ele obrigatoriamente terá de olhar para sua estrutura de custos de forma mais profunda e detalhada. Uma prática que tem ocorrido é o downgrade de produto e limitação de reembolsos”, observa Luís Chicani, da BenCorp.

Segundo Vera Bejatto, o principal propósito da Victory é blindar seus clientes em relação a custos na gestão dos seus benefícios. “Mas depende muito de como a empresa acata nossas orientações, pois temos de não somente envolver o RH, mas, sim, ter o compromisso de toda a liderança, que são os ‘embaixadores da saúde’, pela implantação de uma ‘cultura de saúde’ e atuar com transparência em todos os estágios da prestação de serviços da consultoria”, diz.

Para Rachel Redigolo, da AxisMed, a gestão do benefício saúde é composta por um tripé: gestão de rede; gestão de acesso; e gestão de saúde. “Os pilares de gestão de rede e acesso sempre foram muito fortes, mas seus recursos são finitos, por exemplo, negociação com prestador ou implantação de coparticipação. Já a gestão de saúde, até hoje pouco reconhecida como ferramenta efetiva de gestão, possui um ‘universo’ de ações ainda não exploradas pelas organizações”, finaliza.

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