Mas vai usar mesmo?

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Os headhunters são unânimes em dizer que sempre questionam as empresas a respeito da real necessidade do inglês como pré-requisito para a vaga. Há casos em que não é realmente necessário para uso imediato, mas cresce cada vez mais a possibilidade de se tornar fundamental de um dia para o outro.

“A divisão de cosméticos da Hypermarcas, por exemplo, foi comprada recentemente pela francesa Coty. Imagine se o diretor de planejamento não fala inglês. Terá de ser substituído. Por isso, não tem como fugir disso. O cenário de mercado leva quem não tem fluência a encontrar limitações de ascensão naturalmente”, diz Augusto Puliti, diretor executivo da DMRH.

Segundo Felipe Brunieri, gerente da Talenses Executive Search, há carreiras que exigem a fluência no inglês no curto prazo e outras no médio e longo prazo. É importante considerar o tamanho da empresa em que se atua ou se pretende trabalhar, o mercado em que a empresa atua, a área de atuação dentro da empresa e o cargo que se pretende atingir. “Em empresas nacionais e pequenas, a fluência não é uma exigência. Mas em áreas estratégicas de multinacionais, sim. Enquanto analista, gerente e coordenador, o profissional pode ainda conseguir um bom desempenho com um nível avançado e se preparar para ser fluente e conquistar cargos de diretoria e presidência”, analisa.

Puliti comenta que recentemente trabalhou uma posição em uma empresa nacional na qual a fluência não era necessária, mas o conhecimento avançado, sim. “Isso porque era esperado que a pessoa atuasse trazendo avanços para a área, e toda a literatura disponível como base para isso está em inglês.”

Quando é mais do que necessário

Para organizações em que o uso de um segundo idioma, como o inglês, é corrente, a definição de uma política de formação em língua estrangeira é primordial. A AppNexus, multinacional americana que atua no segmento de tecnologia em publicidade e propaganda, estabeleceu a sua política em agosto do ano passado, um mês depois de sua chegada ao Brasil por meio da aquisição da Real Media.

Robson Louceiro, gerente administrativo-financeiro da AppNexus, explica que 90% dos colaboradores atuam com tecnologia pura e eles têm contato frequente com a matriz nos EUA, o que exige conhecimento de inglês.

Como até a finalização do processo de compra pela AppNexus o idioma corrente na Real Media era o espanhol, surgiu uma demanda dos funcionários por formação em inglês e a empresa passou a custear 100% do curso para todos os colaboradores – exceto os já fluentes – e, em contrapartida, exigiu uma frequên­cia mínima de 80% e nota mínima 7 nas avaliações.

Para os novos colaboradores já é exigida fluência no idioma porque o processo seletivo prevê entrevista com gestores da matriz via tele ou videoconferência, de modo que a falta de conhecimento não permite sequên­cia no processo.

Com funcionários em Buenos Aires (3), em Santiago (1), na Cidade do México (1), em Miami (1) e em São Paulo (30), apenas para o pessoal no Brasil foi oferecido o curso.

Pelo fato de não ser um público muito grande e também pela exigência do conhecimento para novos colaboradores, Louceiro afirma que essa política de idiomas tem uma data para acabar. Ele explica que quando as primeiras turmas começaram a ser montadas, foram feitas avaliações individuais para que o RH conhecesse os níveis. A pessoa que está no nível 1, ou seja, iniciante, para cumprir todo o ciclo de formação, vai levar aproximadamente 10 anos, enquanto que o colaborador que está no nível 7, ou seja, equivalente ao avançado, vai acabar mais rápido, em aproximadamente dois anos, por exemplo. “Portanto, para cada nível e para cada funcionário haverá um tempo para que se cumpra toda a carga horária do curso de inglês. O objetivo da AppNexus é ter todas as pessoas falando a língua fluentemente”, finaliza.

Outra multinacional que também valoriza o conhecimento de idiomas é a sueca Electrolux. “Somos uma empresa global, muitos projetos são elaborados e executados por equipes multiculturais, ou seja, de diferentes países. A companhia subsidia parcialmente os cursos de idiomas para colaboradores das áreas corporativa e técnicas administrativas que utilizem o idioma no exercício de suas atividades”, esclarece Karina Pierri, gerente de recursos humanos da Electrolux Brasil.

Vale a pena dizer a verdade

Seja qual for o nível de conhecimento no idioma, é fundamental, por parte dos candidatos a trabalharem em empresas em que uma língua estrangeira é exigida, dizer a verdade no currículo (sobre a real fluência dos profissionais, veja box Morrer pela língua). “Às vezes a pessoa coloca que ela fala inglês para chegar à entrevista. Mas, se não falar de fato, todo o resto do currículo cai em descrédito. É melhor ser honesto e se propor a fazer um intensivo, fazer de tudo para aprender em pouquíssimo tempo. Quanto mais proatividade e vontade a pessoa mostrar, dependendo da situação, se não for uso imediato, tem chance de ser contratada. Eu já vi bastante isso acontecer. É difícil para a empresa encontrar o candidato ideal, que reúna conhecimento técnico, perfil comportamental e domínio do idioma”, afirma Isis, da Robert Half.

Brunieri concorda. “Se o profissional for um especialista difícil de encontrar no mercado, a empresa geralmente flexibiliza a exigência do inglês, se ele demonstrar que tem vontade mesmo de se tornar fluente em pouco tempo. Mas, se o que está sendo procurado é um perfil mais comum, acabam preferindo contratar o que já tem a fluência”, afirma. Outros casos, segundo ele, nos quais é possível que a empresa queira contratar o candidato, mesmo sem o domínio do idioma, mas com disposição para aprender, se dão quando a necessidade de uso da língua não é grande em um primeiro momento.

O importante para os profissionais é que sejam capazes de participar de reuniões, falar ao telefone, ou seja, falar e compreender o que está sendo dito. “Quando não estamos falando de cargos de alto escalão, se a pessoa consegue passar a mensagem, mesmo que com pequenos erros, não tem problema. O mais importante é conseguir se comunicar”, diz Isis, da Robert Half. (Com reportagem de Vanderlei Abreu e Carolina Sabagh.)

Morrer pela fluência 
Uma pesquisa da Robert Half, realizada com 100 diretores de RH de empresas brasileiras, em 2014, mostrou que apesar de a fluência em inglês já ser considerada importante para o negócio em mais de 80% das companhias, ainda são poucos os profissionais que possuem o domínio do idioma. Quando questionados sobre o nível de conhecimento de inglês entre os funcionários da empresa, os entrevistados responderam que apenas 20% deles têm nível avançado, 45% intermediário e os outros 35% oscilam entre os níveis básico e fraco.  

O estudo da Robert Half considerou a visão do RH a respeito de todos os níveis hierárquicos da organização onde trabalhavam. Outra pesquisa, realizada em 2015 pela Talenses, considerou o perfil de 1.423 profissionais de sua base de dados, em cargos que vão desde a gerência sênior até o C-level. E mesmo entre o público executivo, o percentual de fluentes ou com domínio avançado do inglês não chega à metade dos participantes. Apenas 37% dos executivos entrevistados em processos seletivos da Talenses possuem fluência na língua inglesa. O número de profissionais com inglês em nível avançado é de 8%, enquanto os profissionais com nível intermediário somam apenas 1%. Por fim, 52% estão na faixa de nível básico ou sem fluência alguma no idioma.

“Cada vez mais as empresas estão se globalizando e, com isso, as pessoas que não falam inglês são deixadas de lado e não conseguem ser promovidas. Pessoas que não tinham interface com outras nacionalidades no dia a dia de trabalho e não precisavam ser fluentes, agora, estão precisando”, diz Isis Borge, gerente da Robert Half.

Segundo ela, em situações nas quais o domínio do idioma passa a ser crítico para o exercício da função, as empresas chegam a contratar um profissional que ainda não tem a qualificação técnica necessária, mas é fluente. “O inglês é pré-requisito de quase todas as vagas executivas. Existem ainda apenas alguns poucos mercados em que não é mandatório, como no varejo e na construção civil”, diz. “Muitas empresas também pedem o espanhol ou a língua que se fala na matriz e se o candidato dominar um terceiro idioma é ainda melhor, mas não é determinante.”

 

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