Medicina especializada em gente

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Investir em atenção primária à saúde é a receita do Hospital Sírio-Libanês
para melhorar a saúde de seus colaboradores e evitar gastos
desnecessários com exames e procedimentos cirúrgicos

Imagine a seguinte situação: uma empresa sai em busca de um engenheiro elétrico, com
inglês fluente, para liderar um time de projetos. Esse profissional comandará a reestruturação de uma linha de montagem de uma multinacional do setor automobilístico. Já no início da seleção descobre-se que o CEO da multinacional é formado pela Universidade de Oxford – e pertencer ao seleto grupo de Oxford acaba sendo o critério mais valioso para a vaga. Não são encontrados engenheiros elétricos com esse perfil. A empresa seleciona, então, um administrador, graduado naquela universidade pelo dobro do salário divulgado. A decisão aparentemente pode ter agradado ao CEO da contratante, mas além de ter custado mais para a empresa prestadora de serviço também poderá acabar com sua credibilidade a longo prazo, visto que o administrador não tem conhecimentos técnicos de elétrica.

Gentil Jorge Alves Junior, do Hospital Sírio-Libanês: olhar a saúde integral

Parece até surreal esse tipo de decisão, mas, dadas as devidas proporções, é mais ou menos isso o que acontece, hoje, com a saúde suplementar no Brasil. As empresas gastam seus recursos em saúde com especialistas que não necessariamente vão resolver o problema das pessoas. É um golpe de risco, em que o paciente é jogado de um especialista para outro, sendo que, no fim, após fazer uma série de exames e consultas dispendiosas, ele descobre que seu problema de saúde poderia ser resolvido com a simples receita de um comprimido.

“Existe uma diferença grande entre você prover o acesso à saúde e fazer a gestão correta da saúde”, destaca Gentil Jorge Alves Junior, superintendente de Saúde Corporativa do Hospital Sírio-Libanês (HSL). Para ele, o principal problema da saúde suplementar brasileira é o fato de ela estar baseada em cuidados episódicos, reativos. “O modelo se estruturou muito mais para intervenção do que para prevenção e a promoção da saúde. Isso faz com que haja uma sobrecarga do sistema e um mau direcionamento dos recursos.”

Para ter um tratamento mais assertivo e menos custoso, Gentil defende a adoção do sistema da atenção primária à saúde. Nesse modelo, a porta de entrada do paciente à saúde é um médico generalista, também conhecido como médico da família. Ele e uma equipe especializada em atendimento primário coordenam ações com especialistas e monitoram individualmente a saúde do paciente dentro do contexto familiar e social em que ele vive. “É um olhar na direção da saúde integral, acompanhando o indivíduo ao longo do tempo.”

E não é mero acaso que o médico seja um defensor do sistema de atenção primária à saúde. Ele sentiu na pele os desafios do atual modelo de saúde suplementar no Brasil. O superintendente de saúde corporativa do HSL narra que o hospital lidava com um cenário de custos crescentes no tratamento de doenças para seus 12 mil colaboradores e dependentes. Foi então que, em 2014, passou a adotar um programa de saúde corporativa pautado na atenção primária. “Optamos pelo médico da família como sendo o agente de promoção primária da saúde. Ele é um médico especialista em pessoas, tem esse olhar para o indivíduo dentro do núcleo familiar”, diz Gentil.

E ele não se arrepende da decisão. “Conseguimos dar bastante racionalidade para o sistema. Com exames e terapias mais assertivas; reduzimos, por exemplo, o percentual de pacientes que se submetiam a cirurgias desnecessárias”, afirma.

Gentil elenca ainda os benefícios monetários com a implantação do sistema.“Tivemos uma redução importante do custo total com saúde; desde a implantação do programa até o presente momento, houve uma redução média de 30%, considerando já o custo de operação do sistema.” As idas ao pronto-socorro, algo bem oneroso ao sistema, também foram reduzidas em mais de 50% e a quantidade média de exames solicitados por consulta caiu de 4 para 2,4. “Com todo esse cenário, conseguimos reduzir ainda o custo total de exames agregados à consulta.”

O médico lembra que o principal desafio é pensar não na doença, mas no indivíduo que tem aquela doença. “Dessa maneira, há como fazer correlações que eventualmente não haviam sido feitas”, sublinha. Essa é a principal missão do atendimento focado na atenção primária à saúde.

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