Não é só benefício. É estratégia.

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    Empresas passam a incluir os cursos de idiomas
    em seus programas de desenvolvimento

    Durante muito tempo, os cursos de idiomas eram vistos como um benefício pelos trabalhadores, e até mesmo alguns anúncios de emprego chegavam a mencionar essa oferta como integrante do pacote de benefícios. Com a crescente profissionalização dos treinamentos e a maior exigência por resultados, esses cursos passaram a integrar os programas de desenvolvimento e já não são oferecidos a todos os funcionários.

    TatianaO laboratório farmacêutico GSK, por exemplo, disponibiliza uma plataforma online para todos os colaboradores, e para o nível de gestores, em que o idioma inglês é fundamental, são oferecidos programas de imersão. Neste caso, o profissional pode fazer dois tipos de orçamentos para avaliar qual imersão tem mais a ver com seu perfil, discute com seu gestor e com o RH e os três escolhem a melhor opção. “Os programas feitos no exterior são para os casos em que o profissional precisa ter um ciclo mínimo e melhorar sua fluência o mais rápido possível”, esclarece Tatiana Melamed, diretora de RH da GSK.

    Entretanto, ela ressalta que, embora o idioma seja fundamental para as atividades na companhia, a GSK não impede a entrada de um profissional muito bom pela falta de conhecimento de inglês, mas investe para que o seu conhecimento melhore. “Numa multinacional, se o profissional não tem conhecimento de línguas, acaba ficando com muitas limitações de carreira”, sentencia. Tatiana ainda destaca que a empresa não perde um talento por conta da falta de conhecimento de idioma. “Quando identificamos que o candidato tem potencial, acreditamos que ele tenha potencial para desenvolver o inglês também. Sem contar a gratidão da pessoa pelo investimento feito pela organização.”

    Outro laboratório farmacêutico que investe fortemente nesses cursos, principalmente de profissionais em posições de liderança, é o Eurofarma. Adriana Luz, diretora de desenvolvimento organizacional, conta que em 2017 será ampliado o investimento em cursos de idiomas, principalmente o inglês, porque a Eurofarma está expandindo sua atuação cada vez mais para o exterior, estando presente em 20 países, em especial na América Latina. “Também temos investido em curso de espanhol, mas a companhia tem expectativa de entrar em países em que o inglês é fundamental. A ideia é fechar parceria com algumas escolas que ofereçam programas de imersão fora do Brasil, aliada à oferta de bolsas”, detalha.

    A Eurofarma oferece subsídio de 60% do valor da mensalidade do curso de idioma, e, para ter direito, o funcionário precisa comprovar a utilização da língua no seu dia a dia. No caso das imersões, a proposta é o custeio do curso, passagens e estadia fora do país, mas o colaborador deve fazer o programa durante suas férias. A executiva não vê risco trabalhista nessa prática, porque as pessoas já fazem isso por conta própria. “Como alguns colaboradores já vinham solicitando mudança no período de férias para atender a um curso de imersão no exterior, a empresa decidiu apoiar esses profissionais, estabelecendo uma relação de troca. Entretanto, isso não é uma regra. Se o caso for de um profissional que rapidamente precisa de capacitação no idioma, a empresa vai enviá-lo para a imersão independentemente de ser período de férias”, esclarece Adriana.

    Maior fabricante de eletrodomésticos do país, a Whirlpool tem uma política diferente para os cursos de idiomas, custeando 100% da mensalidade, inclusive para os trabalhadores da fábrica. Os critérios para aprovação da inscrição são tempo de casa, nível mínimo de performance e estar relacionado com a atividade do profissional. A verba de treinamento é distribuída por diretoria e um comitê seleciona entre todos os inscritos quem será contemplado de acordo com a verba disponibilizada. “A prioridade é dada para as pessoas que já estão cursando para que haja uma renovação e estimulá-las a concluir”, esclarece Andrea Clemente, diretora sênior de recursos humanos.

    Assim como na GSK, a Whirlpool também não perde um talento por falta de fluência em inglês. No programa de trainees, e para executivos, é feito um teste de proficiência com um parceiro externo e o recomendado é 70% de fluência. “Uma empresa multinacional como a Whirlpool exige que os profissionais se comuniquem constantemente com o exterior, de modo que observamos qual a fluência que ele tem hoje, qual a necessidade do idioma para sua função, enfim, é feita uma avaliação crítica para cada caso”, pontua Andrea.

    A Mondial Assistance, multinacional francesa de prestação de serviços de assistência 24 horas, controlada pelo grupo alemão Allianz Seguros, tem uma política mais restrita de treinamento de idiomas, oferecendo a formação aos colaboradores avaliados no Programa de Gestão de Talentos – Talent Management, que tem por objetivo mapear, desenvolver, reconhecer e preparar os colaboradores-chaves para futuros desafios do negócio, de forma que aqueles que são identificados como talentos e high performers sejam beneficiados com os cursos.

    Para os colaboradores que foram mapeados como potenciais sucessores e também para as pessoas-chaves com nível de reporte para a diretoria, é oferecido um programa intensivo em parceria com a Nefi – English & Business, que são aulas individuais e o subsídio é de 100%. Para o nível de supervisores e coordenadores, há uma outra modalidade em parceria com a EF – English First, o inglês virtual. Neste caso, o subsídio é um valor menor pago pela empresa, mas também de 100%. A Mondial compra uma determinada quantidade de licenças mensais que são disponibilizadas pelos colaboradores mapeados no Blue Box da matriz Nine Box. Segundo Jucileia Marques, gerente de recursos humanos da Mondial, os programas de ensino de idiomas estão correlacionados à estratégia de RH e programas como avaliação de desempenho, gestão de talentos e ações de desenvolvimento.

    Entretanto, a Universidade Corporativa Mondial tem um curso básico de inglês aberto para todos os colaboradores na modalidade e-learning. No ano passado, dentro do escopo de cidadania corporativa, foi oferecido um curso básico de inglês com quatro horas de duração para a comunidade do entorno da empresa, envolvendo familiares e amigos dos funcionários.

    Mercado
    Rosangela,-diretora-da-Companhia-de-Idiomas-5Embora o ano de 2016 tenha impactado fortemente os fornecedores de treinamento para as organizações, algumas escolas de idiomas não têm do que reclamar. Muito pelo contrário. A Companhia de Idiomas teve um aumento de receita de 19% nos quatro negócios em que atua — cursos, tradução, consultoria e recrutamento de professores de idiomas. “Se descontarmos a inflação oficial, tivemos um crescimento real de 13%, o que foi atípico nesse mercado, ainda mais se falando de treinamento e desenvolvimento que foi uma área difícil em 2016”, aponta Rosangela Souza, sócia da empresa.

    Outra escola que também cresceu a dois dígitos foi a rede paranaense InFlux, que encerrou 2016 com 115 unidades, um crescimento de 12% no número de alunos e aumento de 18% no faturamento.

    Para 2017, a InFlux projeta um crescimento de 20% no faturamento e um aumento de 40 unidades franqueadas. A Companhia de Idiomas também espera um crescimento de 20%. Por outro lado, Rosangela comenta que o principal resultado que a escola obteve em 2016 foi a lucratividade. “Fizemos uma grande lição de casa a partir de 2015, com a saída de um escritório grande para um menor, pelo fato de recebermos poucas visitas de clientes, promovemos um enxugamento de pessoal e também de processos, simplificamos toda a gestão para poder atender mais clientes sem contratar mais pessoas. Tudo isso fez com que aumentássemos em 13% a margem de lucro no final de 2016. Não adianta aumentar receita aumentando despesas, é preciso dar foco à lucratividade”, ensina.

    Rosangela aponta que, por conta da crise econômica, as empresas ficaram mais criteriosas na escolha da escola de idiomas. “Curso de inglês deixou de ser um benefício para se tornar um treinamento, de modo que o RH se torna mais rígido na seleção de quem precisa passar por essa formação. Não é como um vale-refeição, que todo mundo recebe. E o aluno também vem mais consciente do seu papel de aprendiz, se engaja mais no curso porque ele sabe a pressão que tem pelo fato de a empresa pagar o curso”, pontua.
    E pelo lado da escola, os gestores de RH passaram a cobrar mais resultados por meio de relatórios, testes, com uma comprovação do produto final. “Não é só fazer inglês ou espanhol, mas ter um programa com começo, meio e fim. Hoje, o RH é mais estratégico e deseja quantificar o resultado, ou seja, o que significa ser fluente em um idioma”, complementa Rosangela.

    Ricardo Lins, presidente da InFlux, ressalta que as escolas de idiomas precisam apresentar diferenciais que atendam a essa necessidade das empresas. Ele cita a garantia em contrato de o aluno, em dois anos e meio, estar no mínimo em um nível avançado de inglês. “Essa garantia é dada por meio da certificação TOEIC. O aluno se forma na InFlux e faz um teste internacional ao término dos dois anos e meio. A média para aprovação é 7, mas para fazer valer nossa garantia de resultado, ele precisa tirar no mínimo 8,5 para obter atingir um nível avançado”, explica.

    O TOEIC é um teste focado em comunicação internacional de negócios e a InFlux garante uma pontuação mínima de 700 pontos ao término do curso. Caso o aluno não consiga essa pontuação e tenha obtido média 8,5 no curso, a InFlux ministra aulas gratuitas até ele conseguir o resultado.

    TECNOLOGIA
    A tecnologia já não é um diferencial para as escolas de idiomas, de modo que elas precisam constantemente investir em inovação para o ensino de línguas. Rosangela Souza conta que a Companhia de Idiomas passou boa parte de 2016 pesquisando uma solução de curso online e chegou a um desenvolvedor americano que oferece uma plataforma gamificada, além do apoio de professor em algumas aulas por Skype.

    A InFlux também aposta no blended learning, pois acredita ser essencial a presença do professor porque, para dar a garantia, no contrato cada aluno coloca a sua necessidade de aprendizagem, e ele possa saber exatamente o objetivo do estudante.
    Se por algum motivo o aluno não possa participar da aula presencial, ele pode acessar um portal online com conteúdos gamificados em todos os níveis; os alunos podem se comunicar por meio de chat, se desafiarem dentro do jogo e, conforme o aluno vai evoluindo, ganha moedas virtuais que podem ser trocadas por brindes como squeeze, mochila, camiseta, guarda-sol, dicionário, enfim, uma série de produtos com a marca InFlux.

    Outro recurso tecnológico que a InFlux tem utilizado para o aprendizado é o adaptive learning, ou aprendizado adaptativo, chamado InFlux Seven, uma plataforma de exercícios que são adaptados às necessidades e dificuldades do aluno. “Essa é uma tendência do mercado: adaptar os exercícios às necessidades, dificuldades e assuntos de interesse do aluno. Nesse modelo de aprendizado, à medida que o aluno vai respondendo, conforme o aluno erra mais, o próprio sistema vai mandando mais exercícios para suprir essa deficiência”, explica Ricardo Leal, presidente da InFlux.

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