No rumo certo

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Vivemos um momento especial, apesar dos céus cinzentos e turbulentos nos cenários político e econômico. As pessoas sentem que algo tem de acontecer, algo tem de mudar. E essa mudança só será mais produtiva se estiver baseada em bons propósitos. Nas empresas, em especial. Aliás, no mundo corporativo fala-se cada vez mais nesse tema, conforme relata o engenheiro de infraestrutura aeronáutica, com pós-graduação em administração industrial e em biopsicologia e sustentabilidade, Vicente Gomes. Consultor e sócio da Corall, além de ser pesquisador da evolução organizacional e humana e especialista em transformação organizacional e gestão de pessoas, Gomes é conselheiro do Instituto Visão Futuro, que desenvolve projetos de Felicidade Interna Bruta (FIB) no Brasil, e é confundador e conselheiro do Instituto Capitalismo Consciente Brasil, organização que inspira empresas a gerarem prosperidade de forma humanizada. Na entrevista a seguir, ele mostra por que o caminho do propósito é saudável para empresas, pessoas e sociedade.

 

Por que é importante falar de propósito?

É importante trazer a questão do propósito, ainda mais em função do momento que vivemos no Brasil, de desconfiança, de uma certa esperança para que mudanças aconteçam. É importante mostrar a possibilidade de as pessoas refletirem um pouco mais sobre seu propósito de vida pessoal, aquilo que elas acham que trouxeram ao mundo como talento e como colocar isso em prática, para que tenham uma vida mais feliz, mais próspera, mais conectada com significado. Ao mesmo tempo, as empresas devem fazer essa reflexão, vamos pensar o primeiro executivo, a alta direção nesse processo, influenciando e resgatando um pouco a essência da organização. Toda empresa quando nasce, nasce para trazer algo para a sociedade e é isso o que auxilia na questão, por exemplo, de atrair o pessoal certo para ela, que se conecta com esse propósito, o que vai permitir trabalhar feliz. E isso traz desdobramentos para a sociedade e para o planeta.

 

O senhor acredita que as pessoas estão em um nível de maturidade, de autoconhecimento e autodesenvolvimento, capazes de identificar quais são os seus propósitos?

Dou muitas palestras e converso com muita gente e, em minha experiência pessoal e profissional, acredito que a questão do propósito está presente. Existem diversos graus de maturidade, mas, no mínimo, existe uma inquietação das pessoas, existe uma curiosidade que as faz pensar “A vida não está 100%, alguma coisa tem de acontecer”. Acredito que se trata de um chamado inicial dessa reflexão, desse questionamento mais profundo de que alguma coisa tem de evoluir.

 

É como se fosse aquele incômodo que começa a fazer com que saiamos da zona de conforto…

Exatamente. Questões que fazem a diferença. Na minha jornada, eu encontrei muita gente já com um certo tempo de reflexão em relação a isso e que está traçando sua própria caminhada, o que me deixa muito feliz. Eu era sócio de uma empresa e resolvi sair porque nossos caminhos já não se encontravam mais em sua essência mais profunda. Eu me movimentei para um lado, a empresa foi para outro. Vejo uma oportunidade de levar esse movimento para dentro das empresas, não precisando que as pessoas saiam delas, o que é algo válido e possível, que pode fazer parte do processo.

 

Os jovens têm muito forte essa questão do propósito de vida, ou seja, do que eles esperam, o que eles querem. O senhor acredita que esse pessoal está ajudando no aumento de discussão sobre propósito?

Certamente. Eles têm outras formas de ver a vida e o que eles querem. Isso, por um lado, faz com que as empresas se movimentem, é uma força de fora para dentro. Isso leva as empresas a um esforço muito grande para atrair e reter esse pessoal que está entrando no mercado – esse é um movimento. Também acredito que, aos poucos, as outras pessoas que são impactadas por isso também comecem a pensar, dentro de seus vários papéis, como pais, tios, profissionais ou gestores que estão ali, atraindo essa gente nova, comecem olhar isso com curiosidade; algumas, imagino, entram em um processo, que considero natural, de pensar que os jovens não entendem nada da vida, mas passam a ver que a coisa não é tão efêmera, é realmente uma visão de mundo nova que vem de um pessoal mais novo, que veio ao mundo em uma situação de vida totalmente diferente da nossa ou da geração anterior. É natural que a relação desses jovens com tempo, recursos e facilidades seja outra. O mundo de hoje é um mundo totalmente diferente em termos de acessos [em relação ao das outras gerações]. Isso dá a eles um horizonte, uma perspectiva muito maior, de certo modo ambiciosa e ao mesmo tempo traz um senso de preservação que eles consideram importante.

 

Eles também cresceram em uma época em que alguns conceitos foram ganhando corpo, força, saindo do campo das ideias e se concretizando no mundo, como sustentabilidade, por exemplo. Afinal cresceram em um ambiente digital. Isso também contribui nesse processo?

Exato. Isso dá uma forma de a pessoa se organizar melhor em termos de legado. Imagine que esses jovens já falam em legado, “o que eu quero fazer no mundo”. Até há pouco tempo, essa conversa era muito restrita aos empresários, aos executivos.

 

Falando de empresas: como levar esse movimento de reflexão sobre propósito para dentro delas e quais os resultados disso?

É interessante notar que esse tema e as conversas sobre ele têm sido mais frequentes nas organizações. Inclusive, não apenas no universo da empresa: já vemos agentes da macroeconomia falando que [é o que precisamos] nos próximos dois anos para que tenhamos chances de enfrentar essa turbulência toda, de resgatar confiança, de resgatar nossa vontade de querer fazer certo. No contexto das empresas, isso está mais presente, com uma abordagem generativa, em que a presença do tema e a do diálogo a respeito dele começam a mover as pessoas e a organização ao mesmo tempo. De certa forma, percebemos que as companhias que estão no grupo do que chamamos de capitalismo consciente, e que fazem parte dos estudos que resultaram no livro Liderança para uma nova economia, têm conseguido gerar valor e ter sucesso financeiro, embora o propósito delas não seja gerar lucro – elas veem o lucro como uma consequência. Para isso, elas buscam criar um ambiente mais humano. Quando falamos de “mais humano”, não nos referimos [à imagem] de uma empresa “boazinha”, mas organizações altamente eficientes, com processos, com tecnologia, mas que não esqueceram do humano. O humano em termos de suas políticas e suas práticas. E o grande originador dessas empresas é o propósito: algumas nasceram dessa forma, outras passaram a trilhar esse caminho depois que o executivo principal ou o dono percorreu um processo de autoconhecimento, a partir do qual passou a questionar o seu propósito e percebeu que a empresa não estava coerente com o que ele imaginava, ou que queria que o seu trabalho fosse coerente com a sua vida. Então, começaram a imprimir isso dentro da companhia. Esse é o caso da Mercur, do Jorge Hoelzel Neto, que também é um caso analisado no livro.

 

É uma empresa que tem uma história interessante. Ela vive em uma região em que há muitas empresas ligadas à indústria do fumo. E a Mercur, por princípio, não faz negócios com elas. É isso?

Antes, ela até fazia. O processo de mudança da Mercur, guiado pelo propósito, tem muito a ver com o tema sustentabilidade na vida do Jorge. E a sustentabilidade traduzida, inclusive, no trato com as pessoas. O processo que ele percorreu é bem interessante porque não foi do tipo “Eu sou o grande salvador da pátria”. Em função de sua forma de ver a vida, ele resolveu convidar os outros para ajudar a transformar a organização, em um processo de cocriação. Eles dialogaram sobre tudo. A decisão de não trabalhar mais com a indústria do fumo veio dos próprios funcionários. Eles usaram muito a abordagem do Paulo Freire, de diálogo, de construção de soluções em conjunto, da andragogia. Foram tratados como adultos. E dessas conversas nasceram as decisões. Nessa mudança, o processo é muito forte. Você muda a forma de ver o mundo, e muda a forma de agir e a organização ao mesmo tempo.

 

O interessante é que nesses processos de mudança, sobretudo na forma de ver o mundo, muda-se o olhar para o mercado. E isso ajuda a encontrar novas oportunidades, que podem compensar, por exemplo, uma decisão de não trabalhar mais uma linha de produtos ou com uma determinada indústria. Sem contar que isso contribui para trazer um retorno maior, como o senhor aponta no livro.

Essas empresas têm um retorno bem maior. No grupo das empresas que são mais queridas, mais admiradas, que têm lidado bem com essa questão do propósito, vemos que elas vêm apresentando resultados melhores do que outras, em especial a partir de 2008, quando tivemos aquela crise.

 

Uma crise de confiança, diga-se também.

Elas se destacaram. E por quê? Porque vão na essência do humano. Elas estão ali para servir. E o respeito é interno e externo. Há até uma mudança de visão em relação aos concorrentes, que passam a ser vistos como players que podem ajudar a melhorar o mercado.

 

Sai o esquema predatório e entra a coopetição.

Extamente.

 

Quando o senhor fala de confiança, temos sempre de lembrar que quem gera confiança são as pessoas. O que reforça ainda mais o humano nas empresas.

Parte da criação de valor é toda humana. E não adianta nada investir milhões e milhões de dólares em marketing quando a experiência humana, no contato com a marca, não traduz aquilo que foi prometido.

 

Ao falarmos em confiança, nas organizações, falamos também no papel dos líderes, não?

Esse é um tema muito bom e que eu gosto de trabalhar. Ele tem um movimento interno e um externo. O primeiro trata de cada líder consigo mesmo, de autoconhecimento. O líder tem de entender um pouco como ele próprio cria [essa confiança]. Algo similar no que se refere à felicidade: cada um é responsável por sua felicidade. É a forma de agir e de ver o mundo e de interagir com ele que traz para a pessoa as condições para isso, para ser feliz, para gerar confiança.

 

Alguns especialistas definem comunicação como a disputa e a criação de significados. Assim como a confiança. Ou seja, confiança é comunicação. Bem como gestão e liderança…

Quase tudo do humano nas empresas é comunicação.

 

Construir confiança é também se abrir ao outro, saber entender e se expor e saber dialogar para construir essa visão de propósito e definir o caminho a seguir. E o líder é fundamental, é o comunicador mais eficiente dentro da empresa para isso.

Ele tem papel fundamental nesse processo de construção de uma cultura de confiança, que, ao mesmo tempo, é pautada no ser humano, nos resultados, na atenção com relação aos talentos que existem, mas que não são manifestados porque esse ambiente [de confiança] não existe. Isso tem um efeito muito propício porque o Brasil precisa aumentar a produtividade. Às vezes uma empresa tem 100 pessoas talentosas, cada uma com diversas qualidades, mas as companhias tendem a enxergar apenas um conjunto estreito de competências. Isso pode fazer com as organizações exijam do profissional algo que está abaixo do potencial de entrega dele. Com um senso de propósito, as empresas conseguem colocar mais talento das pessoas em prática.

 

 

Retorno bem maior
No livro Liderança para uma nova economia, Gomes relata a pesquisa feita pelo consultor indiano Raj Sisodia sobre as empresas mais queridas e amadas pelas pessoas ao redor do mundo. Do trabalho dele e de sua equipe surgiu a obra O segredo das empresas mais queridas, além de resultados interessantes. Amparado por números, Sisodia percebeu que, entre 1996 e 2011, enquanto uma empresa que estava listada como uma das mais rentáveis da S&P 500 trouxe um retorno aos acionistas de 157% em média, uma companhia tida como good to great, conforme catalogação no livro Good to great – empresas feitas para vencer, de Jim Collins, tinha um retorno de 177%. E as consideradas mais amadas e queridas? Elas ofereciam um retorno de 1.643%. Essas últimas, segundo Gomes no seu livro, têm em comum uma conexão maior com o mundo atual, tentam ouvir mais, entender e alinhar as vozes de todas as partes envolvidas no negócio. “Ao não se colocarem como autossuficientes e focadas apenas no desempenho econômico, melhoram sua capacidade de trazer valor ao mundo, e tornam-se ímãs para a energia criativa humana, atraindo talentos e consumidores que são mais do que apenas isso: são admiradores”, escreveu

 

 

 Vicente Gomes
irá debater mais o tema Propósito durante o RH Rio 2015, congresso promovido pela ABRH-RJ entre os dias 19 e 20 de maio no Centro de Convenções Sulamérica, na capital fluminense. Estará com ele no palco Jorge Hoelzel Neto, da Mercur. Em sua 41ª edição, o congresso tem como tema central Convergência: Quando os propósitos se atraem. Mais informações em www.abrhrj.org.br 

 

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Gumae Carvalho é editor de MELHOR – Gestão de Pessoas, revista oficial da ABRH. Antes, também trabalhou nas revistas Educação e Ensino Superior. Foi professor na Faculdade Cásper Líbero (onde se formou em 1993), assessor de imprensa, consultor editorial e um dos criadores do fanzine (e depois revista) Panacea.

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