O descartável

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    O pior é que ideias, valores e, suprema ironia, até pessoas
    são descartadas com frequência

    Eugenio Mussak é professor da FIA, consultor e autor
    Eugenio Mussak é professor da FIA, consultor e autor

    A palavra “descartar” vem do baralho e significa devolver à mesa a carta que não serve ao jogo, que é inútil. Com o tempo, o conceito foi ampliando sua aplicação. Costumamos descartar muitas coisas, especialmente embalagens, latas de refrigerantes, pratos, talheres, baterias, roupas, celulares. A lista é longa. Antigamente, eletrodomésticos que estragavam eram consertados; hoje é mais barato comprar um novo e descartar o velho – que muitas vezes nem é tão velho assim. A cultura do descartável começou com um homem chamado King no comecinho do século 20. Em uma manhã, fazendo a barba, ele teve a ideia (afinal, quem nunca teve uma ideia fazendo a barba?): “Por que não produzir uma lâmina bem pequena, fininha e barata que substitua a tradicional navalha?”, pensou ele. “Ela seria mais fácil para transportar, e poderia ser simplesmente jogada fora após fazer algumas barbas.”

    Essa ideia, no começo, parecia não fazer sentido, pois as pessoas só entendiam a existência de coisas duráveis, como uma navalha. Mas foi com ela que King Camp Gillette ficou rico alguns anos depois. Em 2005, seus herdeiros venderam a Gillette Company para a gigante Procter & Gamble por US$ 55 bilhões. Essa é uma entre muitas histórias de empreendedores do capitalismo, mas ela tem um componente a mais. Seu personagem principal não criou apenas um novo produto e uma empresa milionária. Ele criou um conceito – o de objetos descartáveis. Sim, o descartável trouxe conforto para a humanidade, mas acabou por criar um novo problema – o que fazer com as toneladas de lixo não degradável que produzimos atualmente, especialmente nas grandes cidades? O descartável é um conforto que cobra um pedágio meio caro. O velho King não poderia imaginar…

    texto-descartávelE, o pior, é que também ideias, valores e, suprema ironia, até pessoas são descartadas com frequência, após vencer seu prazo de utilidade. É o “efeito Geni”. As pessoas também são descartadas quando perdem o fio, como as lâminas de barbear.

    Esse é o lado da cultura do descartável que devia ser, definitivamente, descartado. Pessoas não têm preço. Pessoas têm valor. Empresas que têm essa consciência não são apenas humanistas, são inteligentes, pois, ao conferir valor às pessoas, aumentam seu próprio valor perante a sociedade, aquele mesmo conjunto humano que também costuma ser chamado de mercado consumidor.

    O trabalho de uma pessoa pode, sim, ser quantificado por sua utilidade ou por sua raridade, e pago por tais atributos, mas não a pessoa em si. Podemos comprar o serviço de alguém, mas não podemos comprar sua essência. Aquela essência composta por valores, significados, responsabilidades, conteúdos. Esse conjunto de elementos compõe o que realmente somos, e que nos torna humanos, seres, definitivamente, não descartáveis.

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