Ódio ou amor, a humanidade em cada bit

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Todos os dias, às 8h em ponto, João chega ao trabalho. Sempre em roupas impecáveis, cabelo penteado, perfumado e sorridente, chega cumprimentando a todos. Do momento em que liga seu computador, João trabalha com extrema concentração, conversa pouco, embora, às vezes, mostre com orgulho fotos de sua filha de dois anos para os colegas mais próximos. João é um sujeito comum, agradável e até exemplar, do ponto de vista de seus superiores.

Lídia, diretora de RH na mesma empresa onde João trabalha, recebe um e-mail incomum e perturbador. A mensagem do e-mail, ao invés de tratar de busca por informações sobre vagas na empresa, traz um conteúdo desconcertante, uma série de prints de tela de redes sociais, nas quais, o perfil de João aparece nos comentários promovendo ódio, racismo e homofobia.

Essa situação tem acontecido com certa freqüência nos últimos tempos, principalmente, depois de casos como dos EUA, em Charlottesville, com a Ku Klux Klan, onde alguns dos manifestantes foram identificados em fotos da imprensa e perderam os empregos.

No Brasil, essa onda de ódio cruza as redes sociais e vem ganhando força. Sem nenhuma consciência, pessoas disparam comentários odiosos a esmo, sem medir as consequências de suas mensagens. Do lado dos agredidos, ameaçados e ofendidos, resta denunciar o perfil do agressor à rede social, quando é o caso de perfil falso e, quando não é, pegar os dados e tentar localizar informações como onde ele trabalha, para então denunciar à empresa.

Para os profissionais de Recursos Humanos, especialmente, os que cuidam do recrutamento e seleção, por mais que façam uma varredura na timeline do candidato, não é fácil concluir muito sobre o caráter de alguém, tão pouco caberia, durante um processo de recrutamento, aprofundar-se sobre certas questões de cunho ideológico.

O fato é que um colaborador, denunciado por crime de ódio, associado à imagem da empresa, leva diretamente à seguinte questão: Como lidar com situações como a de João, considerando que também existe a chance de a denúncia ser falsa, com intuito de prejudicar um determinado funcionário?

O processo de recrutamento e seleção precisa ser repensado constantemente para que questões como essa possam ser interceptadas e conduzidas da melhor maneira. Embora não haja uma fórmula para lidar com essa questão, justamente por existirem variantes em cada caso, um recurso que se mostra fundamental é a empresa possuir um código de conduta, bem claro, que permita se posicionar perante a sociedade de modo transparente.

O senso comum diz que não se deve tomar atitudes precipitadas, e sim preservar a pessoa envolvida de uma exposição que pode, inclusive, lhe custar a vida. Do outro lado, a reputação da instituição fica resguardada enquanto os fatos são esclarecidos. Afinal, não se combate o ódio com ódio.

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