Olhar para os sobreviventes

0
518
Marcos Nascimento / Crédito: Divulgação
Marcos Nasimento é partner na Manstrategy Consulting. Crédito: Divulgação

Quando era executivo, conduzi um projeto para ajustar uma estrutura organizacional após a compra de uma operação da concorrente. Falávamos em “ajustar”, mas o que a organização escutava era diferente: “cortar cabeças”! Acreditávamos que fazíamos a coisa certa. Fomos até elogiados por pessoas das empresas (comprada e compradora), comentando que a dignidade, a generosidade e o respeito com que tratamos o tema, sob o ponto de vista operacional (pacotes, outplacements, apoio psicológico, etc.) e sob o ponto de vista estruturante (comunicação, critérios do assessment, etc.), foram impactantes, sérios e honestos.

Quando a poeira baixou, veio a surpresa! Escutamos a seguinte frase: “vocês cuidaram tão bem dos que saíram que se esqueceram dos que ficaram!”. Foi frustrante e, como defesa, nossa reação foi querer “quebrar o termômetro”. Confesso: até fizemos isso, mas a febre continuou! Tivemos de discutir muito para aceitar que não havíamos considerado todas as variáveis em nossa decisão, muito menos analisado com profundidade e amplitude o impacto delas nas pessoas que ficariam para tocar o barco conosco. Até revertemos a febre e consolidamos um tratamento, mas a sequela ficou: impacto na confiança.

Pois bem, em um momento conjuntural em que o efeito da ação de outros — escândalos e rombos na economia causados por pessoas que nem conhecemos — tem assolado a todos; e que temos sido provados em nossa competência de fazer a estratégia acontecer, por meio de um modelo efetivo de gestão de pessoas, presencio a condução de processos parecidos de ajuste de estrutura, de redução de pessoas e que podem ter o mesmo impacto da história acima. A pergunta é: como não descuidar dos “sobreviventes” dessa conjuntura?

Os sucessos que tenho visto em situações semelhantes ocorrem sempre quando o “que” está sendo feito é muito bem explicado, o “como” é detalhado e bem fundamentado, mas principalmente o “porquê” é alinhado, justificado e entendido. E isso só é possível quando um processo de comunicação está alicerçando essas ações. São duas as dimensões que têm sido críticas para minimizar o impacto do que temos vivenciado: 1. coerência entre discurso e prática e 2. transparência (o que pode ser compartilhado deve ser compartilhado). Coerência e transparência nos temas tangíveis e nos intangíveis também. Ou seja, emoções e sentimentos são questões que impactam os processos, as pessoas e os resultados.

Essas discussões são suportadas por ações como workshops com lideranças-chave — one-o-one’s com os key talents da organização e alinhamento dos times de gestores, no qual o foco principal tem sido “escutar a organização” e responder aos sons por ela emitidos. Mas, voltemos a nossa provocação: como não descuidar dos sobreviventes? Cuidando! Como cuidar? Escutando ativamente todas as “vozes da organização”, sendo transparente em suas respostas e coerente nas ações!

comentários