Pessoas saudáveis gerenciam empresas saudáveis

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Para evitar desperdícios e aumentar a saúde dos colaboradores, empresas precisam ter uma visão holística do indivíduo e exigir
contrapartidas dos planos de saúde

Fábio Patrus, do Hospital Sírio-Libanês: o indivíduo é a soma de aspectos físicos, emocionais, sociais e espirituais

Vamos chamá-la de Letícia. Ela é consultora de TI numa empresa multinacional e tem como sobrenome “trabalho”. Desde que ingressou nesse emprego, há cinco anos, ela luta para demonstrar suas competências técnicas e comportamentais. Está online quase 24h por dia. Abandonou a vida em família, amigos e academia. Tampouco tem tempo para uma alimentação adequada. Os lanches e a comida industrializada são praticamente as únicas refeições de seu cardápio diário. Tempo para ir ao médico? Isso é um luxo. Não por acaso, a saúde dela já começa a dar sinais dessa fadiga. Recentemente, Letícia teve um mal-estar súbito e descobriu que é hipertensa. Mas isso não a impediu de seguir a rotina, e a empresa também não deu o sinal vermelho para ela.

Assim como nossa personagem fictícia, há milhares de trabalhadores na mesma situação. Em curto prazo, as ações de Letícia parecem não afetar a empresa. Mas, como a consultora mantém uma rotina nada saudável, as chances de ela ter um evento mais grave como infarto ou AVC são grandes. Além dos custos do afastamento temporário dela da corporação, todas as despesas com os procedimentos e pós-tratamento poderão acabar com o equilíbrio do plano de saúde que ela recebe como benefício. Essa é a situação que todas as organizações e seus respectivos RHs querem evitar, mas ainda não sabem muito bem como.

“A empresa precisa analisar o indivíduo dentro e fora dela. Ele é a soma de aspectos físicos, emocionais, sociais e espirituais”, defende Fábio Patrus Mundim Pena, Diretor de Unidades Externas e Saúde Corporativa do Hospital Sírio-Libanês. Na visão dele, o primeiro passo para isso é observar modelos que integrem o indivíduo ao seu meio.

Para o gestor, as empresas, hoje, terceirizam a saúde de seus trabalhadores para os planos de saúde. Estes, por sua vez, apenas fornecem acesso à rede de especialistas e hospitais conveniados. “Não há ninguém coordenando as necessidades desse paciente. Ele está solto dentro de um sistema complexo e, muitas vezes, largado à própria sorte, tendo de decidir por conta própria aspectos extremamente técnicos.” Sem esse gerenciamento, trabalhadores passam de consultório em consultório até descobrirem finalmente qual é o problema que possuem. E o custo dessa maratona é alto para as corporações.

“Quando a empresa concede uma carteirinha do convênio para o colaborador, é como se estivesse dando um cheque em branco para utilização”, avalia Patrus. Ele lembra que o sistema de saúde é mutualista. As pessoas que são saudáveis financiam a utilização daqueles que estão doentes. Mas, se todos começarem a usar o sistema equivocadamente, haverá um descompasso com a saúde financeira do plano de saúde. Por isso, Patrus acredita que as organizações e o RH devem monitorar efetivamente, com indicadores, como está sendo investido esse dinheiro dos planos. “As empresas são feitas de pessoas e organizações saudáveis são feitas por pessoas saudáveis.”

Cultura de prevenção à saúde
As intervenções e a reabilitação de doentes são alguns dos principais gastos de saúde nas organizações. E sabe-se que os determinantes da saúde estão 50% relacionados às mudanças de hábitos de vida, 20% relacionados diretamente a fatores genéticos, 20% com as condições de meio ambiente e 10% com o acesso à saúde. Prover exclusivamente o acesso ao plano de saúde corresponde a apenas a 10% do alcance do problema. Para tanto, a área de RH promove ações de prevenção à saúde na tentativa de melhorar a qualidade da saúde de seus colaboradores e evitar esses custos. “Na verdade, talvez o engajamento do indivíduo e das organizações, nesse tipo de atividade, seja um grande desafio das empresas”, ressalta Patrus.

Para ele, essa conscientização precisa começar da base, da educação. Ele acredita que o RH deve ser responsável pela comunicação da informação ao colaborador. Todavia, o especialista defende que esse não é um trabalho para apenas uma “formiguinha”: entidades de saúde, governos, organizações e, sobretudo, o indivíduo devem trabalhar em conjunto para promoção da saúde, sublinha Patrus. “Investir em programas de promoção de saúde, alimentação saudável e controle de estresse são ações que podem gerar resultados, mas devem estar integradas num panorama mais amplo que também envolva a assistência pautada em modelos de atenção primária.”

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