Prevenção eficiente

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Percebe-se que os executivos estão tentando se alimentar melhor. Mas o colesterol continua alto em boa parte dos profissionais

Diretor-geral da Limppano, empresa brasileira que atua há mais de 50 anos no segmento de limpeza, Alex Buchheim decidiu mudar, literalmente, sua posição em relação à saúde de sua coluna. Para minimizar as dores e incômodos que sentia, um dos passos adotados foi trocar a cadeira do escritório que, segundo ele, era muito confortável. O investimento em uma nova cadeira, mais apropriada ergonomicamente, se deu no mesmo dia em que recebeu o resultado do check-up que havia feito. “Eu possuía um problema muito sério de postura e na minha avaliação nos exames me informaram sobre algumas coisas que eu estava fazendo errado”, conta. Além de trocar essa peça do mobiliário, Buchheim também deu início a outra mudança, talvez mais importante: a de adotar hábitos, e posturas, mais saudáveis. E tudo isso graças a um tempo que ele dedicou a si mesmo, por meio do check-up.

Segundo o diretor e cardiologista do Vita Check-Up Center, Antonio Carlos Till, essa bateria de exames permite saber o que estamos fazendo de errado com o nosso corpo, além de diagnosticar doenças precocemente. “Por meio da identificação de costumes de vida prejudiciais e de indicadores de risco de doenças, é possível transformar o momento da avaliação de saúde em reflexão e mudança de hábitos de vida”, diz.  

A postura é um dos diversos problemas que agravam a saúde de muitos executivos que passam pelos check-ups, mas o estresse, a obesidade, o tabagismo e as doenças ligadas à má alimentação estão entre as mais comuns detectadas por esses exames.

Em um estudo realizado pela Omint, o estresse e a baixa qualidade de vida são os principais causadores das doenças dos executivos. Ao avaliar as condições de saúde de 20 mil profissionais no primeiro semestre do ano passado, dos 20 problemas de saúde mais comuns apresentados, 11 deles eram consequências de uma vida estressada, permeada por hábitos de vida não saudáveis.

De acordo com o diretor do Vita Check-Up, é possível segmentar as doenças relacionadas ao trabalho. “Na área mais executiva e gerencial, o estresse emocional, indiscutivelmente, tem um papel de extrema relevância, visto que são identificadas muitas manifestações somáticas secundárias, consequências dessa pressão emocional”, diz.

Desencadeadores

O estresse das longas jornadas de trabalho vem contribuindo para que haja um número considerável de executivos com sintomas de ansiedade, depressão, insônia, enxaqueca, além de tensões musculares e problemas nas costas e pescoço. Essa é análise feita por Cícero Barreto, diretor comercial e de marketing da Omint, que identificou ainda que o pouco cuidado com a alimentação e o sedentarismo fazem com que quatro dos principais fatores causadores de doenças cardíacas (hipertensão, diabetes, colesterol e o excesso de peso) apareçam no ranking das chamadas “doenças corporativas”.

Já Till acrescenta à lista de doenças desencadeadas pelo estresse os problemas de pele – problemas como desidrose, psoríase, dermatite seborreica etc. –, as gastrites e as alterações de ritmo intestinal, e os problemas no coração advindos do aumento da hipertensão arterial, de arritmias cardíacas e de doença isquêmica coronariana (angina e infarto).

César Jardim, cardiologista responsável pelo Clinic Check-up do Hospital do Coração (HCor), em São Paulo, relata que boa parte do check-up realizado no hospital foca os fatores de risco de doença cardiovascular. “Identificamos os principais agravantes que podem desencadear a angina, o infarto, a morte súbita e o acidente vascular cerebral (AVC), como tabagismo, colesterol, triglicérides, pressão alta, diabetes, sedentarismo, estresse emocional etc.”, conta. Ao optar pelo check-up, o paciente tem à sua disposição uma consulta clínica com um cardiologista e a avaliação de seu estado físico por uma equipe multidisciplinar composta de nutricionista, fisiatra, urologista ou ginecologista, oftalmologista, dermatologista, além de exames de imagem e análises laboratoriais.

Após a realização dos exames, o retorno aos especialistas, que no caso do HCor acontece em no máximo três semanas, é primordial para a mudança de hábitos. “Ao passarmos os resultados, sempre alertamos, dependendo da avaliação de cada paciente, para a mudança de hábitos ou a procura por especialistas, caso necessário, e notamos que nesse sentido os executivos são muito receptivos”, destaca Jardim.

Objetivo claro

Para Till, do Vita Check-Up Center, o papel do médico nesse momento é fundamental, pois é esse profissional quem dará um aconselhamento objetivo e claro para uma mudança de hábitos a favor da saúde. “É também função do médico examinar e correlacionar de forma meticulosa as informações avaliadas no check-up, sejam provenientes de alterações laboratoriais ou clínicas, ou, ainda, a partir da história pessoal ou familiar do paciente. Sabe-se que há a questão hereditária na origem de várias doenças e a orientação profissional pode trazer grandes benefícios”, explica o especialista.

Till, do Vita Check-Up Center: momento para reflexão

O CEO da Limppano, que realiza check-up pelo segundo ano consecutivo, afirma que executivos como ele, que vivem preocupados com estresse, que dormem mal e viajam muito, têm de dedicar pelo menos meio dia no ano para cuidar da saúde. “Isso é uma prática que adotei na minha rotina. Assim, para aqueles que gostam de viver, cuidar da saúde é fundamental”, ressalta.

Além do estresse, a má alimentação é um dos principais desencadeadores de problemas de saúde. Segundo Cícero Barreto, diretor comercial e de marketing da Omint, antigamente a principal preocupação era a tensão gerada no dia a dia do trabalho, hoje em dia, cresce o foco na qualidade e quantidade daquilo que os executivos estão comendo – muitas vezes em almoços de negócios, eventos etc. Por essa razão, a operadora disponibiliza nutricionistas nas empresas para a montagem de cardápios personalizados. “A avaliação feita por nossos profissionais remete a adequar o perfil de alimentação daquele usuário de acordo com a realidade que ele possa cumprir, até para que essa mudança seja a mais tênue possível”, diz. Essa é uma das iniciativas que podem ser implantadas pelas companhias para melhorar os hábitos alimentares dos colaboradores. Outra forma de conseguir aplicar uma alimentação mais saudável à rotina dos executivos é utilizar o nutricionista existente no protocolo do check-up para tirar dúvidas e montar uma dieta equilibrada.

Na pesquisa realizada pela Omint, o quesito alimentação mostrou que 30,13% dos executivos estão tentando se alimentar melhor, enquanto que 39% afirmam estarem pensando muito no assunto recentemente. Porém, o colesterol continua alto em boa parte dos profissionais. Em um levantamento realizado pelo Vita Check-Up Center, com 12 mil exames de executivos (72,7% do sexo masculino e 27,3% do feminino), foi constatado que 50,8% apresentaram altos índices de colesterol. Till orienta que, para manter bons índices nesse quesito, é preciso adotar boas práticas no dia a dia, eliminando o sedentarismo e incorporando a boa alimentação e outros hábitos indispensáveis ao bem-estar, como o controle de peso e do estresse emocional. “Atividades físicas aeróbicas regulares (como natação, corrida, andar de bicicleta, tênis, futebol etc.) ajudam no controle do peso e dos níveis de colesterol, aumentando o colesterol bom e contribuindo para a redução da fração ruim”, explica.

 
Mudança de hábitos

Uma mudança realmente efetiva e evidenciada por aqueles que administram check-ups no Brasil é a redução do tabagismo entre executivos. No estudo do Vita Check-Up Center, o tabagismo ativo está presente somente em 10% dos executivos, representando 1.251 profissionais. “Esse número vem mudando conforme o passar dos anos, sobretudo pelo aumento da consciência de que o tabagismo é fator determinante para doenças graves e crônicas”, afirma Till.  Já no estudo da Omint, o número de fumantes, que era 18% em 2004, vem caindo gradativamente e, hoje, é de 11,46%.

Já a prática de atividade física sofre um aumento gradual com o passar dos anos. Ao analisar os 3.517 check-ups Vita Mulher, programa focado no público feminino do Vita Check-Up Center, verificou-se que 52% relataram praticar alguma atividade física. Entre o público masculino, observou-se 58% de indivíduos ativos. “Muitas vezes, a ausência de atividades físicas – intensificada pelas jornadas que a mulher tem de enfrentar – é um desafio para essas profissionais, que precisam inseri-las na extensa rotina diária”, destaca Till. E ele alerta sobre como o sedentarismo de homens e mulheres influencia diretamente nos níveis de sobrepeso, tornando-se desencadeadores de várias doenças: “O estudo mostra que estar em dia com os exercícios físicos é estratégico para evitar distúrbios de saúde. Felizmente, cada dia mais presente no subconsciente das pessoas, está o alinhamento das atividades físicas com bons hábitos alimentares, e isso vem contribuindo também no aspecto psicológico para o combate do estresse e da baixa autoestima, funcionando muito bem como estímulo para eliminar o tabagismo”, reforça.

Incentivo

A saúde física e emocional do executivo é, hoje, uma das principais preocupações das empresas, e o incentivo para a realização de check-ups faz parte do escopo de ações promovidas para motivar e reafirmar a preocupação com os colaboradores. O diretor comercial da Omint, Cícero Barreto, espera que estudos como o da seguradora promovam uma reflexão por parte das companhias. “Investir em prevenção deixou de ser supérfluo para se tornar peça fundamental na gestão da saúde dos colaboradores. Não se trata apenas de uma questão de custo ou aumentar a produtividade. Preocupar-se com a saúde de seus profissionais não deixa de ser uma forma de reconhecimento”, conclui.

Para Till, o papel da empresa ao oferecer e cobrar a realização de check-up periódico de saúde de seus executivos é fundamental. “Além da valorização profissional decorrente do benefício dado ao executivo, a empresa está permitindo de forma efetiva que ele possa se concentrar por algumas horas no cuidado da sua saúde, refletindo sobre seus hábitos de vida”, diz. O especialista conclui que o check-up é muito mais do que realizar apenas uma bateria de exames avulsos. “Ele é uma oportunidade ímpar para que as pessoas se informem e se conscientizem da necessidade da prevenção de eventos e de mudanças, incorporando hábitos saudáveis como alimentação regular, prática adequada de exercícios com orientação profissional, redução do estresse emocional intenso, eliminação do sedentarismo, do fumo e consumo moderado de álcool”, finaliza.

Itens prescritos 
Confira a lista de exames que estão presentes em boa parte dos check-ups para executivos:

Avaliação laboratorial: composta por cerca de 30 exames, inclui sangue, fezes e urina.

Avaliação ginecológica (programa feminino): incluindo colposcopia e colpocitologia.

Avaliação clínica: exame clínico geral.

Avaliação urológica (programa masculino): dosagem de PSA e exame clínico (toque retal, quando indicado).

Avaliação cardiológica: eletrocardiograma de repouso, prova de esforço computadorizado e ecocardiograma bidimensional.

Avaliação ultrassonográfica: abdome, tireoide e próstata (homens) e abdome, tireoide, pélvica transvaginal e mamas (mulheres).

Avaliação respiratória: prova de função respiratória.

Orientação nutricional: análise de composição corporal por bio-impedância, cálculo de IMC (índice de massa corporal) e orientação nutricional com elaboração de programa dietético.

Avaliação do estresse emocional: entrevista com psicóloga.

Avaliação radiológica: raios X de tórax (PA e perfil).

Audiometria aérea e óssea.

Avaliação oftalmológica, incluindo teste de acuidade visual, tonometria, estudo de refração e fundoscopia.

Avaliação postural: com aconselhamento ergonômico.

 

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