Quem poupa tem e produz mais

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Pereira, da Holcim: produzir mais, sem preocupações financeiras

Aumento da gasolina, elevação dos custos com energia, água e impostos e o arrochamento dos salários. Esse é o atual cenário que o colaborador brasileiro enfrenta: enquanto a  inflação sobe, a renda, em alguns casos, desce. Nessa ginástica diária de custos versus ganhos, o profissional está trabalhando contra a balança e, se não conseguir cortar algumas calorias do cardápio de gastos, o zíper dessa conta não fechará.

Na verdade, a conta já não fecha há um bom tempo e, agora, com o pacote de ajustes da economia brasileira, a situação parece ainda não ter saído das turbulências. Mais da metade das famílias brasileiras (57,8%) estão endividadas, de acordo com pesquisa conduzida pela Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo.  Reforçando a tese do endividamento, talvez a raiz do problema seja um pouco mais profunda: a falta de importância que as famílias dão ao tema educação financeira. Um estudo realizado pelo Serviço de Proteção ao Crédito (SPC Brasil) revela que três em cada dez consumidores (36%) disseram “saber um pouco ou nada” sobre quanto gastaram no mês anterior.

Para o educador financeiro do SPC Brasil, José Vignoli, o diagnóstico financeiro é o ponto de partida que orienta o consumidor a se planejar para alcançar seus objetivos. “É justamente por meio dele que a pessoa vai descobrir onde estão os gargalos, como desperdícios ou gastos supérfluos. A partir daí, o consumidor pode estudar alternativas vantajosas para gastar com consciência”, orienta o especialista.

A chamada educação financeira é mais requerida em situação de crise, mas deveria ser o norte de empresas e colaboradores em todos os momentos da vida. Afinal, o colaborador que está preocupado demais em pagar as contas no fim do mês não tem o mesmo desempenho do colega que está no azul. O mesmo é válido para empresas. Organizações financeiramente saudáveis têm mais fôlego para passar por momentos de turbulência.

Empresa cocidadã

Essa lição foi muito bem incorporada pela Holcim, que resolveu passá-la adiante para seus colaboradores. Desde 2012, a multinacional do ramo de cimento oferece para seus funcionários um programa de educação financeira, baseado em palestras, cursos e consultoria presencial e on-line com educador. “Temos uma estratégia de responsabilidade ativa, de trabalhar saúde e benefícios, porque a base da empresa é formada pelos funcionários. E vimos que o desequilíbrio nas finanças pode levar à dispersão”, afirma Juliana Andriegueto, gerente de responsabilidade social corporativa e do Instituto Holcim para a América Latina.

Em 2012,  os débitos do cartão de crédito e o financiamento da casa própria tiravam o sono de Marques Pereira, de 49 anos. Embora não estivesse com as contas atrasadas, pagá-las estava ficando cada vez mais difícil e o salário não chegava até o final do mês. “Não conseguia guardar dinheiro e não tinha tempo para organizar as finanças”, conta.

Pereira, que é coordenador de produção na fábrica de Pedro Leopoldo da Holcim, em Minas Gerais, teve suporte da empresa para conseguir organizar melhor o orçamento. O programa de educação financeira da Holcim se estende à família. E é a esposa de Pereira quem cuida das contas em casa. Ela participou das palestras e cursos oferecidos e é a responsável pela planilha de controle das despesas. Após o curso, a família do funcionário constatou onde estavam os excessos – combustível e vestuário – e mudou o padrão de gastos: conseguiu diminuir em 14% os gastos com combustível. “Minha esposa começou a pegar carona e eu, como trabalho perto de casa, ando até o trabalho em alguns dias da semana”, conta.

Com tudo organizado, Pereira consegue respirar e observa diferença no trabalho. “Dá para produzir mais e dá tranquilidade”, conta. Embora avalie que o aumento da produtividade é consequência do programa e não a motivação, Juliana diz que benefícios como esse ajudam a reter o quadro. “A empresa mostra que se preocupa com o funcionário em todas as dimensões”, diz.

Observar o bolso

É desde cedo que se deve aprender a fazer a conta custos versus rendimento. Se em casa esses conceitos não são aprendidos, a vida se propõe a ensinar. Foi o que aconteceu com o estudante de engenharia elétrica Thiago Wronski Bueno. Ele conta que sua família costumava gerir as finanças e ele não tinha muita noção dessa questão. Contudo, quando foi morar longe de seus pais, em uma república estundantil, ele teve de aprender na marra a observar o budget.

Juliana, da Holcim: desequilíbrio nas finanças pode levar à dispersão

“Eu não tinha um planejamento, não me organizava. Com isso, acabava tendo muitos gastos à toa”, afirma o estudante, que possuía uma ajuda de custos dos pais e da universidade no valor de 700 reais para arcar com moradia, alimentação, transporte e material didático.  Bueno explica que, como não sabia organizar os gastos, acabava quase sempre com rombos no orçamento. “Sempre faltava e como eu tinha vergonha de pedir mais dinheiro para meus pais eu ia fazer bicos de assistente de eletricista, dar aulas particulares (muitas vezes, em horário de aula)”, conta.

Tabular gastos

As consequências dos gastos descontrolados foram o baixo rendimento escolar e a depressão. “Não queria tirar notas baixas e decepcionar minha família”, diz. Cansado daquela situação, o estudante resolveu entender melhor o universo das finanças pessoais.  Sem dinheiro para procurar um curso de especialização no tema, Bueno encontrou na internet um Mooc de Educação Financeira, na plataforma Veduca. “Foi um fim de semana a fio fazendo o curso.” E valeu a pena. “Aprendi a tabular os gastos, a separar o que eram gastos fixos dos variáveis. Comecei a fazer pesquisas de preços; diminuí o uso de cartão e até parei de comprar lanches na universidade”, elenca. O estudante explica que em vez de comprar salgados e sanduíches na lanchonete da universidade, passou a comprar pão e frios e a fazer os proprios lanches. “Aparentemente, pão de fôrma tem um custo-benefício maior que o da empadinha”, brinca.

A partir dessa varredura nos gastos, Bueno, descobriu onde estavam localizadas as gorduras de seu orçamento e começou a agir. “Hoje, até sobra um dinheirinho no fim do mês para guardar para eventuais gastos futuros”, completa o comedido estudante.  Além dos gastos dele, Bueno também ajuda colegas a controlar as entradas e saídas. A fama dele nesse assunto foi tamanha que um escritório de engenharia o contratou para trabalhar como estagiário na parte administrativa do negócio. (Colaboração de Camila Mendonça)

Como não ficar no vermelho  
Quando chega o fim do mês, sempre vem aquele frio na barriga. Quer dizer que as contas estão chegando. E uma das piores situações que enfrentamos é a de não conseguir administrar corretamente os recursos financeiros e honrar todos os nossos compromissos, não é verdade? Tendo educação financeira pode-se combater esse problema com duas abordagens: a preventiva (evitar a situação de endividamento) e a repressiva, e mais dura, que consiste na adoção das medidas necessárias, como corte de despesas, venda de ativos, substituição de empréstimos por outras operações com menores custos financeiros, etc. Abaixo, o promotor de justiça do consumidor no Ministério Público de Minas Gerais e criador do Portal Educação Financeira Para Todos, Lélio Braga Calhau, elenca cinco dicas de como seu comportamento pode ajudar na administração financeira.

1. Previna-se
Quando se trata de cuidar do equilíbrio financeiro pessoal, o caminho preventivo é a melhor saída. Isso porque todas as ações desenvolvidas, quando se está em situação financeira de emergência, são mais difíceis, uma vez que o equilíbrio emocional e o prazo curto para conseguir novas fontes de renda pressionam as pessoas a adotarem medidas emergenciais, que podem ser prejudiciais ao patrimônio da família. Um exemplo é que muitas famílias recorrem à venda de seus imóveis para quitar dívidas. Vale a pena reservar um dinheiro do seu orçamento para se resguardar de possíveis acontecimentos desagradáveis.

2. Estude sobre educação financeira
Muitos educadores financeiros têm focado questões técnicas como, por exemplo, o uso de planilhas de orçamentos, na hora de orientar as pessoas. De fato, a preocupação deveria ser anterior a isso, no sentido de se buscar antes dessa fase a mudança real do comportamento dos consumidores. É preciso buscar conhecimento sobre como lidar com seu dinheiro.
 
3. Não aceite todas as promoções
O consumidor, embora tenha seus direitos resguardados legalmente, é vitimizado quase que diariamente por centenas de estímulos de marketing para gastar dinheiro. As empresas trabalham no limite da legalidade. São ofertas de promoções, que acabam sendo péssimas para o consumidor que compra sem cautela coisas de que não precisa ou não quer. Aí, consequentemente, surgem as dívidas. Não acredite em todas as promoções, seja diligente ao verificar os pontos positivos e negativos de todas as compras, não aceite ser pressionado com a estratégia do marketing de dizer que há poucos produtos (escassez) ou que a promoção termina hoje (senso de urgência). Você compra se quiser e nem toda oferta pode ser boa para você.

4. Não pegue empréstimos
O consumidor deve passar a adotar uma postura mais defensiva quando lida com o seu equilíbrio financeiro, pois aquelas pessoas que ofertam empréstimos fáceis no mercado são as primeiras que irão processá-lo judicialmente, quando houver inadimplência.
           
5. Tenha equilíbrio financeiro
Zele pelo seu equilíbrio financeiro como um guardião de um castelo, porque se os exércitos do endividamento invadirem sua vida, você e sua família serão afetados por isso. Comportamento é tudo quando se trata de manter o equilíbrio financeiro. Fique atento a isso. Sua família vai agradecer!  

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Foi subeditora de "MELHOR - Gestão de Pessoas" e hoje é colaboradora. Sua última empreitada antes de escrever sobre gestão de pessoas foi na área de comunicação corporativa, o que lhe rende até hoje boas pautas e impressões sobre este universo.

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