Simplificando…

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Eugênio Mussak / Crédito: Divulgação
Eugenio Mussak é professor da FIA, consultor e autor / Crédito: Divulgação

A complexidade já vem de fora, da crise, do mercado, da política. Então, pelo menos dentro da empresa vamos tentar tornar as coisas mais simples. É hora de rever os processos, diminuir a burocracia, facilitar a comunicação, dar fluidez às iniciativas. Simplificar é a saída. Simplifique sua vida e você vai economizar tempo, gastar melhor os recursos e aumentar a produtividade. Sim, eu sei… ser simples não é tão simples assim.  

A palavra simplicidade é formada por duas outras de origem latina: sin, que significa único, um só; e plex, que quer dizer dobra. Então, ser simples significa ter uma só dobra, ao contrário do complexo, que tem várias dobras. Imagine uma folha de papel na qual está escrita uma importante mensagem. Quem a escreveu dobrou a folha uma única vez e a entregou para você, que, em um gesto único a abre e lê seu conteúdo. Simples!

Agora pense nessa mesma folha dobrada várias vezes, como um origami (mas sem a beleza da arte japonesa). Um monte de dobras que deixam claro que a preocupação do autor é esconder o conteúdo da mensagem. Você precisará, neste caso, dedicar-se a desfazer as dobraduras, uma a uma, até abrir a folha, que deverá, então, ser alisada, desamassada, antes de expor seu conteúdo. Complicado!

Pois assim é a vida em todas as suas dimensões. Pode ter uma dobra generosa ou ter várias dobras desconfiadas. Simplificar significa, então, facilitar o acesso ao que interessa, ao conteúdo dos fatos da vida, das coisas que usamos e das mensagens que queremos passar. Isso explica tudo. Aliás, a palavra explicar significa exatamente “tirar as dobras”, alisar a folha que contém nossas ideias e nossa história. Só explica quem quer simplificar. Quem não quer, complica.  

Mas cuidado, há uma grande diferença entre ser simples e ser simplório. Os simples resolvem a complexidade, os simplórios a evitam. Há pessoas sofisticadíssimas, intelectualizadas, que levam uma vida plena, realizam trabalhos difíceis, apreciam leituras profundas e têm hábitos peculiares. E mesmo assim são pessoas simples, descomplicadas. E há também pessoas com pouca profundidade, que realizam trabalhos repetitivos, que têm poucas ambições de realização e posse, que apreciam rotinas e evitam os sustos de uma vida aventurosa. Essas são as simplórias que, mesmo assim, conseguem ser complicadas. Para elas tudo é difícil, em geral impossível.

Não, ser simples não significa evitar o complexo, abrir mão da sofisticação, negar a profundidade, contentar-se com o trivial. Ser simples significa olhar com olhos plácidos a esfinge da complexidade e decifrá-la muito antes de correr o risco de ser devorado.

Para ser simples, antes é preciso ser complexo, enfrentar o labirinto das dúvidas até encontrar o caminho da simplificação. Sim, porque a simplicidade é um tipo de sabedoria que, às vezes, só se conquista com o tempo, com a idade, após ter vivido, experimentado, sofrido e aprendido. Simplificar a vida significa alisar o que está amassado, desdobrar os papéis, expor os conteúdos com vontade, coragem e grandeza.  

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