Sobe ou desce

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Provavelmente você já ouviu dizer que uma graduação não é garantia de uma vaga em um processo seletivo, que é preciso ir além, e que ter um MBA no currículo ajuda. Em um cenário de 8,3% de desemprego, na contabilização final do primeiro semestre deste ano segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), isso até pode ser verdade, uma vez que outros fatores influem na tomada de decisão do recrutador. Mas isso está muito perto da realidade se levarmos em conta uma pesquisa feita pela Robert Half junto a 70 executivos brasileiros da área de RH: 68% deles assinalaram que essa formação (MBA) é relevante.

Isso talvez explique o resultado de outro levantamento, desta vez da Ross School of Business, da Universidade de Michigan, que mostra que o número de brasileiros nos programas executivos de RH quadruplicou de 2010 a 2013, o que coloca o país no oitavo posto do ranking de procura por MBAs dessa natureza.

Mas será que essa demanda sofreu algum revés em função do atual cenário econômico que o país vivencia? E o que as escolas de negócios pretendem oferecer no próximo ano para reverter um quadro negativo ou manter e até aumentar os atuais resultados em termos de alunos inscritos em cursos dessa natureza, focados em gestão de pessoas?

Estratégicos

Não há como negar  que, em tempos bicudos, há redução de custos e de quadro de funcionários nas empresas. Isso pode ser traduzido, nas escolas de negócio, como menos investimentos em seus cursos, seja pela interrupção de pagamento ou diminuição do valor pago pelas empresas nas mensalidades de seus funcionários (quando há um programa ou ação nesse sentido), seja na interrupção de indicação de alunos para esses cursos. Impactos sempre há.

Essa parece ser a opinião da coordenadora do módulo gestão de pessoas do MBA de Administração da PUC/SP, professora Elisabete Adami. De acordo com ela, há um reflexo forte sobre a demanda.  “A procura caiu e a tendência é piorar, pois, além de serem caros, a crise econômica tende a se aprofundar”, diz a professora, que coordena o módulo de gestão de pessoas, atualmente com 25 alunos.

Apesar de muitos dos alunos terem as mensalidades pagas pelas empresas por meio de convênios, ela lembra que com a visão de curto prazo que o país tem, as corporações tendem a cortar esse investimento. Outro fato que, na percepção dela, aponta para uma retração na procura por esses cursos é que as pessoas estratégicas já passaram pelo MBA. “Em algumas empresas, os principais colaboradores estratégicos, por exemplo, já estiveram conosco, e agora a organização está mandando profissionais operacionais”, diz.

A preocupação com a crise econômica e seus reflexos na demanda dos cursos é corroborada por Renata Nogueira, coordenadora geral de educação executiva do Ibmec/RJ. Segundo ela, a sinalização é de que os profissionais estão demorando mais para decidirem sobre investir ou não em um upgrade educacional. “Eles estão aguardando para ver o que vai acontecer, é um reflexo do cenário de retração do mercado. Porém, na tomada de decisão, eles optam pelo curso. Inclusive, as empresas diminuíram o envio de colaboradores em função de reestruturação de seus quadros”, conta.

Na FGV/SP, de acordo com o professor Paulo Lemos, diretor do FGV Management, responsável pelos MBAs da instituição, o impacto não foi o mesmo. Ao contrário, o professor garante que houve um crescimento de 2% no número de alunos matriculados este ano. “Agora, estamos com 162 alunos cursando o MBA de recursos humanos, que tem a duração de 18 meses. Porém, temos trabalhado muito para nos manter nessa posição, fazendo palestras e divulgando o curso”, conta

Elisabete, da PUC/SP: impacto na demanda

Outro fator que tem contribuído para esse bom resultado, conforme Lemos informa, são os convênios firmados pela instituição com empresas como Mercedes, GM, Santander, Pão de Açúcar, Serasa, Johnson & Johnson, entre outras. Ele observa que, no caso específico de um curso focado em RH, as empresas começam a compreender a relevância do setor como porção estratégica da engrenagem corporativa e, diferentemente do passado, preservam os investimentos em recursos humanos.

Lemos destaca que a crise atinge tanto o colaborador quanto a empresa. Para a corporação, a crise significa ser necessário buscar mais competitividade, reduzir custos e elevar a produtividade, o que implica, em tese, investir mais na capacitação dos colaboradores. Do ponto de vista do trabalhador, a crise pode vir com uma demissão, o que o leva a buscar uma vantagem competitiva em relação a outros profissionais. “Nesse momento de crise, as pessoas investem para ter um diferencial em relação ao concorrente, e imagino que se a crise permanecer por muito tempo o panorama pode mudar”, conta.

Para o professor da FGV, um ponto fundamental que explica a boa receptividade de um programa de MBA em recursos humanos está no fato de, hoje, as corporações investirem mais em profissionais com visão estratégica. “Todas as companhias que enviam colaboradores para nós têm um planejamento estratégico de longo prazo, mesmo porque o que faz uma empresa dar resultado é, principalmente, o capital humano. Ou seja, a responsabilidade estratégica dos colaboradores está alinhada com a empresa”, diz. Por essa razão, o curso da FGV/SP está baseado na estratégia e na economia. “Focamos a estratégia porque, quando as empresas conseguem realizar esse alinhamento entre pessoas e metas, os resultados são muito melhores. Para 2016, a escola vai manter as mesmas disciplinas”, conta.

Por sua vez, a PUC/SP, para o próximo ano, no módulo de gestão de pessoas, pretende intensificar o intercâmbio internacional com a China. “Já levamos alguns alunos para visitar empresas de lá, mesmo porque, além de as universidades naquele país serem  avançadas, a infraestrutura é muito boa. Na China, você precisa mandar os funcionários embora para casa, pois eles acreditam que com o trabalho eles estão construindo um país para ser de primeiro mundo”, diz Elisabete.

A atitude do Ibmec em relação a esse panorama da economia, enfatiza Renata, é apostar na atualização do curso focando em novas disciplinas. “Até porque o coordenador específico do curso, professor Paulo Sardinha (presidente da ABRH-RJ), tem uma troca muito forte com o mercado e com os gestores. Dessa forma, podemos compreender quais são os gaps que os executivos querem trabalhar dentro das suas empresas, e atualizar nossa grade”, diz.

Ela acredita que tudo gira em torno da gestão das pessoas, tanto em períodos de desenvolvimento, quanto e, principalmente, nos momentos mais difíceis. “Líderes fortalecidos e profissionais que saibam lidar com cenários adversos são os mais disputados no mercado, pois mobilizar uma equipe, trabalhar a questão motivacional, criando soluções em meio à crise, é essencial. Procuramos formar líderes com esse perfil”, diz Renata.

Ela explica ainda que, neste momento, o Ibmec está em fase de reuniões do comitê acadêmico para formatar o curso para 2016. “É uma fase de reavaliar nossos programas e lançar novos produtos, pois não podemos nos acomodar frente à crise. O objetivo é procurar um maior alinhamento com o mercado, acrescentando conteúdo ao que a escola já tem, e fortalecer as parcerias com a Harvard e o Boston College”, conta.

Foco em gestão de equipes

Voltando à crise: para o professor Guy Cliquet, coordenador-geral dos Certificates do Insper, de São Paulo, alguns fatores devem ser levados em conta quando se fala em crise e demanda. “Se, por um lado, existem pessoas disponíveis no mercado por estarem desempregadas e com menos dinheiro, elas têm tempo para se prepararem melhor para o futuro e terem mais empregabilidade. Por isso, é possível que algumas instituições de ensino que já não tinham uma boa demanda piorem de situação”, diz.

Ele conta que no Insper o crescimento neste ano foi de 10%, graças a um programa que foca gestão de equipes pequenas, e também porque, na onda de redução de custos, gerentes seniores estão perdendo emprego e abrindo oportunidades para os que estão logo abaixo. “E isso é um bom motivo para investir em um programa de capacitação”, lembra.

Cliquet não acredita que, no geral, a queda de demanda seja expressiva. “Escolas que entregam um potencial de desenvolvimento ao profissional vão ser procuradas e ter números positivos. Nosso curso tem uma fundamentação de base muito forte, trabalhamos competências hard skills (quantitativas, finanças, operações) e também na parte de soft skills (comunicação, negociação, equipes e alguns aspectos mais específicos no processo de gestão de equipes)”, diz. O único upgrade que o Insper planeja para seu programa em 2016, relata Cliquet, é uma disciplina na parte organizacional de gestão de pessoas. O curso dura 18 meses e mais três meses de trabalho de conclusão de curso, que é uma aplicação na empresa em que o colaborador trabalha.

Coordenadora do Núcleo de Estudos e Desenvolvimento de Pessoas da ESPM, de São Paulo, Adriana Gomes acredita que os cursos focados em gestão de pessoas têm um forte apelo pelo fato de serem as pessoas que vão liderar e extrair o maior desempenho possível das equipes, de outras pessoas. E até mesmo o fato de as equipes estarem diminuindo em função da redução de pessoal contribui para a procura por esses cursos – ao menos deveria contribuir –, pois isso torna ainda mais necessária uma melhor gestão de pessoas, e gestores mais bem preparados.

“Não há negócios sem pessoas, elas são parte fundamental do sucesso. Percebo que os trabalhadores estão muito preocupados em desenvolver competências técnicas, mas os problemas aparecem quando eles se deparam com a comunicação e o relacionamento. O desenvolvimento de competências comportamentais é muito frágil na formação dos profissionais”, diz Adriana, lembrando que os principais focos do curso são liderança, formação e desenvolvimento de equipes.

A ESPM, por essa razão, como diz a coordenadora, foca o programa em comunicação efetiva, feedback, negociação, liderança em gestão de equipes, fator humano nas organizações, transformação em gestão de pessoas, quando desenvolve especificamente competências comportamentais. A vivência, na visão de Adriana, é o que vai causar para o gestor e para o líder as condições para que eles apliquem os conceitos que são vistos na teoria.

Para 2016, Adriana explica que a escola terá uma programação ainda mais focada em desenvolvimento de lideranças, das competências comportamentais, em comunicação e feedback, em técnicas de apresentação, que ainda, diz, continuam sendo falhas nas corporações.

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