Tempus fugit

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Eugenio Mussak / Crédito: Divulgação
Eugenio Mussak é professor da FIA, consultor e autor / Crédito: Divulgação

 Mal começou o ano e já estamos no segundo semestre. Quando me dou conta, chega o CONARH 2015, e eu ainda nem processei bem todas as informações do congresso do ano passado. De tempos em tempos paramos para refletir sobre o tempo, esse algoz que tem vida própria. “O tempo foge”, disse Virgílio. “Irreversivelmente o tempo foge.”

A única proeza em que o homem teve sucesso, a respeito do tempo, foi conseguir medi-lo. Para isso, analisou ciclos, como os movimentos da Lua e do Sol, observou seu efeito sobre a natureza, e então padronizou os tempos do ano, das estações e dos dias, posteriormente divididos em frações, chamadas horas, minutos, segundos. Em sua arrogância, o humano acreditou que, ao medir o tempo, o controlaria. Doce ilusão. As medidas só serviram para aumentar a sensação da passagem veloz do tempo, que escorre pelas mãos, como a água que, formada por moléculas, sempre encontra um caminho para seguir seu destino, que é a gravidade. O tempo é assim, líquido, escorre pelas mãos, atraído pela gravidade do destino.

Mas nem tudo está perdido. Dá para melhorar nossa relação com o tempo, pois nós, humanos, podemos ser apenas pobres mortais, mas temos uma ferramenta que nos permite controlar nossa própria existência. Essa ferramenta chama-se inteligência. E ela nos permite conviver com o tempo a partir de três visões: da física, da metafísica e da ética. Do ponto de vista físico, o tempo pode ser medido; no âmbito da metafísica, o tempo pode ser sentido; e, de acordo com a ética, o tempo deve ser vivido.

Muito se fala que a única coisa real é o presente, pois o passado não existe mais e o futuro ainda está por vir. Há uma lógica nessa observação, mas é uma lógica primitiva, pois esses tempos são totalmente interligados e interdependentes.

É verdade que o presente é a única realidade prática, mas também é verdade que é nesse instante que se inserem o passado e o futuro. Na dimensão temporal atual, o passado recebe o nome de memória, e o futuro tem vários pseudônimos, tais como sonho, desejo, medo e esperança.

O futuro não é algo que vai existir, o futuro existe agora. Aliás, o futuro só existe no presente, pois quando, no futuro, o futuro virar presente, ele deixará de ser futuro. Parece óbvio, mas escapa da percepção cotidiana da maioria das pessoas. E escapa também o fato de que o futuro virará presente, e quando isso acontecer, ele será melhor ou pior a depender das providências tomadas no presente, neste presente. Em outras palavras, só vivemos no presente, mas estamos fortemente conectados ao passado que nos ensina, e ao futuro, que nos motiva. Viver é estar atado a essa tríade temporal, doce ou amarga, dependendo da sabedoria aplicada por cada um.

Fazer as pazes com o tempo é a verdadeira sabedoria, só que “a sabedoria não se transmite, é preciso que nós a descubramos fazendo uma caminhada que ninguém pode fazer em nosso lugar e que ninguém nos pode evitar, porque a sabedoria é uma maneira de ver as coisas”, disse Marcel Proust, que escreveu sobre a busca do tempo perdido. E ainda acrescentou: “O amor é o espaço e o tempo tornados sensíveis ao coração”. Grande Proust…

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