Terceirização e a guerra de informações

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    Quem está defendendo e quem está atacando sabem do que se trata?

    Por Dorival Donadão*

    Em artigo publicado no jornal O Estado de S. Paulo, do dia 30 de março deste ano, o respeitado decano do tema “emprego e relações do trabalho”, José Pastore, aponta um fato bastante representativo do que vem acontecendo com a sociedade brasileira: a verdadeira guerra de informações sobre a nova lei da terceirização.

    De um lado, os empresários e vários acadêmicos que enxergam no projeto uma alternativa de flexibilizar as enferrujadas leis e normas do trabalho no Brasil que, como todos sabem, datam da época getulista. Esses defensores da nova lei também divulgam rápidas (e ingenuamente irreais) melhorias na geração de empregos em todos os setores. No outro lado do “ringue”, aqueles que veem um ranço satânico no projeto, capaz de roubar os direitos históricos do trabalhador, tais como o décimo terceiro salário, as férias, o seguro-desemprego, a licença-maternidade e por aí vai. Nessa perspectiva, seria como jogar no lixo a clássica Consolidação das Leis do Trabalho (CLT).

    Para apimentar esse conflito de percepções, as redes sociais estão criando um novo alfabeto para as mudanças previstas, criando uma massa de informações, muitas delas distorcidas. Resumo da ópera: ninguém sabe onde está a verdade e onde está a exacerbação do direito de análise e julgamento de um tema tão relevante.

    No meio desse tumulto, surge a notícia sobre mais uma escalada do já alarmante nível de desemprego no Brasil: chegamos a mais de 13 milhões de desempregados, e não há perspectiva de melhorias significativas no mercado que possam atenuar essa curva ascendente. Ao contrário, prevalecem a incerteza e o pessimismo sobre eventuais retomadas a curto e médio prazos.

    Esse quadro chega, portanto, a um surrealismo frenético: há uma crise econômica que gera queda de consumo e achatamento na oferta de empregos. E há um debate sem ponto de convergência entre alguns atores do contexto que, simplesmente, pode inviabilizar os acordos necessários para que a lei possa “pegar” no Brasil. Sim, porque como dizia Roberto Campos (economista polêmico e culto), no Brasil certas leis “pegam” e outras não… Ou seja, mesmo aprovada e sancionada pela presidência do país, a terceirização pode ter seus benefícios (que de fato existem) atrofiados, caso seus riscos (que também existem) sejam exacerbados pela crítica social.

    É hora, portanto, dos protagonistas desses cenários colocarem as armas em descanso e buscar um ponto de convergência. Afinal, a verdadeira guerra está aqui fora, nas ruas das grandes e médias cidades, no desânimo de quem luta há muito tempo por um emprego decente, na violência que acaba atraindo os desesperados. É disso que se trata. E não de uma guerrilha de opiniões que não leva a lugar algum, a não ser o redemoinho de vaidades dos críticos de ambos os lados. Ideologias à parte, é preciso buscar caminhos para o flagelo do desemprego no Brasil. E isso pede consenso e não guerrilha.

    *Dorival Donadão é sócio-diretor na Donadao & Associados – Gestão e Desenvolvimento de Pessoas e colunista de MELHOR

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