Virando o jogo

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Eugenio Mussak / Crédito: Divulgação
Eugenio Mussak é professor da FIA, consultor e autor / Crédito: Divulgação

Era a final do Australian Open, o jogo já durava quase seis horas e estava no tiebreak, o que significa que eles tinham empatado os quatro primeiros sets. O Djokovic estava sacando, mas o game estava 40 a 30 para o Nadal, ou seja, bastava uma bola indefensável do espanhol ou um erro do sérvio para que terminasse a partida e o Slam da Austrália.

Os dois jogadores estavam no limite de suas forças e os reflexos de ambos já não eram os mesmos. Foi quando Djokovic repetiu seu pequeno ritual, dando uma volta sobre si mesmo com os braços abertos e olhando para a plateia, pedindo a força dos aplausos, como já havia feito naquela famosa final de Wimbledon contra o Federer. Quando voltou tinha sangue nos olhos.

Seu saque foi forte, e não deu para o Nadal, cujas pernas já não respondiam. Deuce – empate, o que levaria o jogo para mais dois pontos, e o Novak não os desperdiçou. O set point foi um smash no lado esquerdo da quadra enquanto Nadal estava à direita. Não deu para o miúra espanhol. Fim de jogo. Vitória do Novak.

No linguajar do esporte, virar o jogo, é o ato de reverter um placar, ganhar um jogo que parecia perdido, o que dá à vitória um sabor especialíssimo. Pois pense um pouco e você se lembrará de situações parecidas na vida. Quantas vezes algo – negócio, emprego, promoção, resultado – parecia totalmente perdido e você, de alguma forma, virou o jogo?

A vida moderna tem muito de esporte e também muito de seleção natural. Ainda que algumas pessoas considerem essa comparação exagerada, e às vezes politicamente incorreta (argh), a verdade é que há, sim, uma disputa pelos espaços, pelas colocações, clientes, empregos, participação no mercado. A competitividade, que sempre esteve presente na vida em sociedade, e que no sistema capitalista foi elevada ao status de paradigma, está presente em nossa vida cotidiana. E favorece os mais preparados, mais aptos, aqueles com maior capacidade de adaptação às mudanças cada vez mais frequentes. E também os que treinaram mais, se prepararam melhor.

O.K., colaboração também existe, dizem, não é só competição. Claro que existe. A própria teoria da evolução baseada na seleção natural, esboçada por Darwin, diz isso. Sobreviveram as espécies em que seus representantes desenvolveram com mais eficiência a capacidade de colaborar uns com os outros e, por isso, ficaram mais aptos enquanto espécie. E ficaram mais aptos para quê? Ora, para competirem pela comida e pelo espaço com as outras espécies.  

Não, a vida não é um jogo, mas às vezes é ainda mais cruel, pois o que se tem a perder pode não ser apenas uma medalha, mas muito mais que isso. Por essa semelhança e por nosso natural espírito competitivo, gostamos de acompanhar esportes, competições em que os atletas se confrontam, entre si e consigo mesmos. A competitividade presente nas carreiras e nas organizações pode parecer cruel, mas nos ajuda a superar nossos próprios limites, muitos deles autoimpostos.  

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